ENTRE NÓS: Music, Fashion, Film
O “Entre Nós” é um quadro que surgiu no desejo de trazer uma discussão entre os redatores a respeito de determinado lançamento em alta, principalmente álbuns de música pop que não receberiam necessariamente uma crítica em seu lançamento (por não serem o foco do site), mas que entendemos que possam gerar algum tipo de discussão interessante. Leia abaixo os comentários da nossa redação:
Apesar de não ter comprado a ideia pelos singles e todo o rollout pretensioso, com uma suposta radicalidade estética, o disco novo é divertido. As letras são simples, mas com uma pós-ironia que encaixa no lore da Charli, e as texturas milimetricamente cruas tem bastante espaço na mix pra brilhar. Não acho que vá ter o momentum do BRAT e invadir as pistas de dança de assalto. Parece algo para ouvir no fone e elaborar as angústias quase juvenis, mas legítimas, de uma popstar duramente humana. – gambito de rafinha.
O álbum não me desce de jeito nenhum. É mais um bolo de coisas completamente idiotas ditas pela Charli que ao menos no BRAT era condizente com a temática e sonoridade do disco. Os swifties deviam dar uma chance pra esse álbum, talvez eles gostem, já que é um disco medíocre e hipócrita em muitos dos sentidos e músicas – e eba, não tem música eletrônica, então está ótimo já que escutam música para a alma e não para rebolar a raba na Zig! – João Vitor.
Até seus detratores não vão conseguir negar a habilidade de Charli de moldar sonoridades e estéticas a sua imagem. Finalmente o revivalismo y2k abraçou o new rave e a indietronica dessa década. Partindo de referências como Yeah Yeah Yeahs, Cansei de Ser Sexy e The Ting Tings, o resultado é um trabalho bem mais pungente e reflexivo do que BRAT. É como se a vulnerabilidade de Sympathy is a Knife ou So I pairasse como uma névoa por todo o trabalho. A artista se desnuda frente a sua própria irrelevância, seja pessoal, seja ao mundo, sem salvação. – João Pedro Leopoldino.
Music, Fashion, Film não nega em momento algum que Charli tem passado tempo demais ao lado de Matty Healy, e cabe ao coração de cada um julgar se isso é uma bênção ou um infortúnio. Afinal, em vez de se preocupar em entregar o próximo banger para lotar a Zig, como disse o João Vitor, ou até mesmo o Birosca, ela preferiu entrar no estúdio sem compromisso para brincar de fazer indie rock com os amigos. Toda a graça do disco está justamente em ver uma artista que sacou a própria preguiça e resolveu não se levar a sério, transformando essa postura em trinta minutos de uma audição que passa voando e soa até bem leve. Para os saudosistas de plantão, a Charli e o A. G. Cook nunca mais vão entregar uma faixa tão boa quanto “White Roses” e só nos resta aceitar. – Gabriela Caligares.
Um dos álbuns que mais me fizeram matutar sobre como eu ouço um álbum novo de fato nos últimos tempos – a arte da Charli aqui está em modo completamente focado no conceito de ser provocadora, de depois de finalmente ser “levada a sério” na indústria, tivesse ficado desiludida e feito um “álbum piada” para demonstrar sua frustração com a arte, ela parece ter decidido abordar sua música da maneira mais cínica, obtusa e confusa possível ao se rebelar de uma forma que possa soar superficial, mas que contém muita esperteza em como lida com esse cinismo – nada dito por ela aqui é uma epifania profunda e a Charli entende que a música é talvez o pior meio para se passar uma ideia, um pensamento profundo – a arte no geral é uma maneira muito confusa de se transmitir algo (e a última faixa é a síntese perfeita que no fim das contas a arte é inútil, mas é a única coisa que vale a pena), mas a Charli mais uma vez tenta e o que consegue é transmitir sua frustração consigo mesma, com seu público e com a indústria musical da maneira mais jovem-rebelde-que-não-tem-muito-o-que-dizer possível e esse é provavelmente o seu trunfo. É algo clichê de dizer que a superficialidade aqui é o propósito do álbum, que ele é anti-marketing, mas é – a bobajada de “Rock Music” em pegar um riff minusculo de guitarra apoiando letras cobertas de 5 camadas de ironia diferentes sobre “fazer rock” foi algo que irritou todo mundo e essa era a intenção, um grandessíssimo ragebait. E faz sentido ser um álbum tão polarizante, não vou dizer que não entendo quem vê e não gosta da superficialidade aqui ou que não se impressiona com a tentativa dela ser irônica e edgy, mas acho que essa abordagem é ver o álbum pela metade – o que começa como uma “ironia pela ironia” se degringola para fins mais existencialistas pela duração do álbum, Charli questiona até suas próprias intenções ao fazer esse álbum e transmite um sentimento real de angústia e insatisfação consigo mesma, como se lá pela sétima faixa já tivesse se arrependido do álbum. No entanto, toda essa conversa conceitual não sustentaria a obra se ela não tivesse CANÇÕES e esse é o ponto final aqui, por baixo de todo o sarcasmo blasé e irritante, a Charli continua compondo muito bem, de maneira mais minimalista e picotada, claro – muitas ideias, melodias e motifs não se desenvolvem por completo, mas a capacidade dela de construir algo memorável com um estilo mais econômico é impressionante e A.G. Cook se mostrou muito bem para produzir músicas de guitarra, transformando o que facilmente poderia ser um pastiche de estilos noventistas em algo que remonta a essa era, mas sem realmente apelar para a nostalgia, distorcendo a memória do indie rock para algo mais irreconhecível temporalmente, mas mesmo assim familiar. Pode parecer também superficial de primeira, mas revela umas camadas bem interessantes ao perceber que permanece como um produto único em um contexto que se não único, é interessante o suficiente para ser discutido, amado e odiado. – Marcus Vinicius.
Gosto como nesse álbum a Charli decidiu trabalhar com a simplicidade e afetividade em torno da música. Enxergo que tudo o que está à disposição do ouvinte vem muito de coisas que ela gostou durante a vida toda e condensa muito bem a essência de sua identidade artística, é por isso que, pra mim, é um dos álbuns mais autênticos do ano e de sua carreira. Mesmo trabalhando com assuntos espinhosos, em alguns momentos, tudo é feito baseado em uma acidez um tanto quanto doce, tem o sabor de uma bala de gelatina azedinha, que não tem nada de muito complexo e desafiador em seu sabor “rock indie” artificial da superfície, mas é muito confortável quando chegamos no centro de tudo e temos um álbum pop com letras confessionais e bastante honestas. A duração das músicas funciona bem pra mim, que estou com o álbum no repeat desde que saiu, e, novamente, essa rejeição ao maximalismo de ‘Brat’ é um passo muito inteligente a ser dado quando desce do topo de sua carreira no mainstream. É honesto, bonito, engraçadinho e muito interessante. – Lucas Granado.



