
O Zig Festival em São Paulo prometeu um sonho e acabou entregando um pesadelo.
No último sábado, aconteceu a edição de São Paulo do Zig Festival. Todos estavam super animados pelo line up desse ano, que teve uma ótima curadoria de DJs e atrações nacionais e internacionais, focados na cena queer. O show mais aguardado foi o da Slayyyter, que estourou recentemente com o seu último álbum Worst Girl in America. O sucesso dela está tão grande, que felizmente ano que vem ela volta para o Lollapalooza.
Eu estava super animada para ver algumas atrações que dificilmente veria por aí, como a Rochelle Jordan. Cheguei uma hora e meia antes do show dela e assim que entrei na Audio Club, me senti no horário de pico da estação da Sé de tanta gente que ocupava aquele espaço. Já vi diversos shows ali e foi a primeira vez que vi tão lotado.
O festival foi dividido em três palcos, porém as principais atrações internacionais da noite se concentraram no pavilhão. E foi pra lá que eu fui. Já estava muito cheio, então nem sonhei em sair de lá. Afinal, os três principais artistas que eu queria ver naquela noite, iam se apresentar ali mesmo.
Enfim, começou o show da Rochelle. E nossa, que show delicioso. Teve uma estética simples, mas com muita elegância. Era impossível não se embalar com o house dela, especialmente quando ela começou a cantar “Ladida” e “Doing It Too”. E ela parecia tão feliz ali em cima do palco, o que deixou a experiência ainda mais gostosa. Acertaram em cheio em trazer a diva para o festival.
Em seguida, tivemos a presença de INJI, que subiu atrasada no palco, mas exibiu bastante carisma. A turca ainda aproveitou a sua visibilidade naquele momento para demonstrar apoio à presidência de Lula no segundo turno. Eu vivi esses shows perto do palco, então o som estava chegando bem. Porém, vi muitos comentários do público que o som estava péssimo em outros cantos do pavilhão, especialmente no show da INJI.
A dupla Haute & Freddy foram os próximos a brilharem no palco do pavilhão. O show começou com um visual e música circense. Nem todos ali apreciaram a estranheza do duo, mas quem curtiu, curtiu bastante, especialmente quando tocaram “Freaks” e “Dance the Pain Away” O público, no meio do show, levantaram as mãos formando um “L” de Lula. E a vocalista foi no embalo fazendo o mesmo. Não sei se ela entendeu alguma coisa, mas eu adorei.
Assim que terminou o show, foi chegando mais gente por ali, deixando o local muito apertado. O público estava ansioso para ver o próximo show, que era o da Slayyyter. Inclusive eu, que também fui principalmente para vê-la. Mas em um momento, minutos antes do show, tive que sair daquele espaço onde eu estava. O local onde aconteceu o show, parecia ter mais gente do que a capacidade permitida. Tava muito abafado também. Era um lugar fechado, sem ventilação. Eu bebi bastante água, mas comecei a sentir a pressão caindo e saí dali.
Nesse momento, Erika Hilton subiu ao palco e fez algum discurso que nem prestei atenção, me senti até bolsonarista em ter ignorado ela, mas eu estava desesperada pra encontrar algum canto mais tranquilo. Achei um canto do lado do bar, perto de uma porta da saída de emergência que por alguns minutos, até me senti melhor. Mas depois, vi que eu precisava sair dali e tomar algum ar fresco e pedi ajuda de alguns bombeiros que me levaram para a enfermaria. E bom, eu já me senti bem melhor quando abriram a porta e senti o vento da rua em mim.
A enfermaria ficava no estacionamento, logo atrás do pavilhão. E lá já tinha muita gente passando mal. Fui liberada rápido, foi só uma queda de pressão. Mas como eu ia voltar para o pavilhão para a ver a Slayyyter. Não tinha como. O lugar estava abarrotado de gente. Eu não tentei sair de um palco para o outro, mas havia só uma passarela fechada pra isso e pelos comentários que ouvi, foi um pesadelo.
Abriram a porta do fundo do pavilhão, onde dava para o estacionamento e eu tive que ficar ali. Não assisti absolutamente nada do show, só ouvi. E aquele pedaço ali, foi enchendo de gente. O público estava desistindo de ficar naquele forno, sem ventilação alguma e saíram de lá, preferindo poupar a própria vida. Como eu não conseguia enxergar absolutamente nada do palco, saí na penúltima música e fui até a praça de alimentação, fazendo um caminho pelo estacionamento, que era mais tranquilo. Chegando lá, parecia um apocalipse. Vi muita gente descansando entre as árvores, como se tivessem saído de uma guerra. Muitos estavam com uma cara de derrota e medo. Uma noite que era pra ser divertida e segura para os LGBTs, como muitos artistas falaram no palco naquela noite, acabou sendo o oposto disso.
Quando cheguei em casa, dei um search em “Zig Festival” no Twitter e só tinham relatos horríveis. Coisas que eu nem presenciei, como vômito e xixi no meio da pista e bombeiros tacando garrafas de água nas pessoas no meio do desespero. Os poucos comentários positivos que encontrei, foram, na maioria, de pessoas que tinham algum vínculo de amizade com a galera da produção.


