
★★★★½
MPB vulgo Música Putaria Brasileira ou Música Periférica Brasileira, brinque com as suas alcunhas como quiser, mas duas coisas que se firmam entre as confusões são que a música é brasileira. Música Brasileira, vista por olhos estrangeiros, é algo criativo e único, mesmo sendo atrelada de maneira simplista a uma leitura superficial: ou é dançante ou é extremamente delicada e linear. Isto é visto por olhares externos, que buscam não só usurpar, mas aproveitar-se da abrasiva genialidade que povoa o maior país da América Latina. Além da Putaria, sonicamente, soa como uma expansão não só do que é perceptivo dentro do gênero, esse o funk, que aqui é um sol no vasto horizonte que pulsantemente é desbravado por Yuri em míseros 23 minutos.
O artista paulista faz mais ao pegar essa visão estrangeira e fazer o que tem galgado por toda a carreira: subverter expectativas. Sainté, um dos pilares do hip-hop underground londrino, voa de asa-delta em um funk com inserção de violinos cintilantes, consagrando o brasileiro como realmente um “Mágico da Favela”, como comunica o título. Passeando por inúmeros gêneros de origem periférica, como o boombap clássico e sujo em “Nas Antigas”, com a melhor produção da carreira de DJ Glenner, que oferece harpas e violinos em loop, enquanto MC Kadu complementa o verso intenso de Yuri sobre a sua escalada árdua até o recente reconhecimento nacional, ainda não expansivo, mas o tanto para fazer o seu nome um dos mais reverenciados da nova safra do funk e hip-hop.
Há críticas sociais mordazes, como em “Não Divulgo Bet”, em que reforça a integridade moral (mesmo que falhe algumas vezes) ao não se entregar a pedidos de casas de apostas, vendo que sua caminhada inspira inúmeros jovens periféricos a seguirem com consciência suas respectivas trajetórias. Além da Putaria realmente cumpre o título, indo além da superficialidade do que a ‘putaria’ pode oferecer e transpondo outras faces de um artista periférico com sonhos já alcançados e em constante evolução, utilizando a vulgaridade como a sua porta de entrada para comunicar muito mais do que era esperado de si.
Do rap melódico, passeando pelo mandelão, o boombap sujo e o trap funk, Yuri Redicopa se recusa a ser colocado em uma gaveta ou caixa, mostrando com a sua criatividade o porquê deve ser considerado um dos nomes mais interessantes e únicos dentro da música contemporânea brasileira.
Selo: Independente.
Formato: EP
Gênero: Funk / Hip-hop / Trap


