O que pensamos sobre a conjuntura política atual do Brasil

O Brasil nunca viveu um colapso moral como vive hoje. Se nas eleições de 2018 a figura da família Bolsonaro aparecia como uma suposta ‘’novidade’’ , hoje ela se põe como uma realidade brutal e cínica. O discurso que se centraliza na doutrina cristã — mesmo não seguindo seus princípios à risca — e a falta de desenvolvimento em seu projeto de campanha, que se centralizou apenas em discursos de ódio contra a oposição , se tornam ecos de pessoas aparentemente cansadas com o ‘’não avanço brasileiro’’, que entendem o governo Lula como um retrocesso e politicamente fadigado.

Embora apontando que necessita existir ambos os lados políticos para a manutenção da democracia, a direita tem se mostrado atolada de figuras caricatas e, em sua grande maioria, burras e idiotas. Não há meio-termo nessas palavras, observando que suas figuras emergentes se demonstram cada vez mais intolerantes, misóginas, machistas e que replicam discursos de ódio como se fossem cânticos de orgulho, com um dos exemplos mais contundentes sendo a agora eleita deputada estadual de São Paulo, Eduarda Campopiano, que em seu plano de propostas apresenta uma página em branco.

O que mais nos assombra dentro desse contexto, é nos darmos conta de que por mais que existam notícias, reportagens, declarações e provas de envolvimentos da direita com esquema de corrupção, isso não é avaliado com a mesma cobrança pelo eleitorado, que faz vistas grossas em nome da defesa da “família tradicional”. Para isso, temos apenas uma assombrosa e dura explicação: o discurso de ódio contra as minorias foi o principal fator de decisão favorável de votos na eleição de 2026. Isso, além de absurdo, é distópico. Não podemos aceitar uma nação que, em sua maioria, rejeita o diferente, não respeita as mais diversas identidades e formas de existência; que os enxerga como inimigos a ponto de desumaniza-los; que prefere abrir mão da conquista de direitos trabalhistas em troca de dividir espaços com essas pessoas. 

Percebemos que estamos lidando com um problema enorme quando colocamos nesse posto um candidato à presidência que não possui páginas no seu plano governamental sobre investimentos destinados à educação superior, nem políticas voltadas a investimentos no campo da cultura. Quando falamos de políticas de assistência social o buraco é ainda mais embaixo, uma vez que em um país com o panorama do Brasil, um candidato que não visa executar ações para atender a grande parcela populacional mais pobre, só vai contribuir para o empobrecimento dela, para o aumento da desigualdade e, consequentemente, da violência.

Ao colocar o candidato na liderança da corrida presidencial, o primeiro turno escancarou o tamanho do impasse político do país, somado aos mais de 33 milhões de brasileiros que se mantiveram distantes das urnas, entre a abstenção de 21% e os votos brancos e nulos que deixaram quase um quarto do eleitorado fora da escolha. Esse quadro nasce do desgaste da esquerda liberal ao se prender às regras de uma democracia burguesa subordinada às exigências do mercado, abrindo espaço para a extrema-direita se organizar no ambiente digital e no Senado. O risco dessa bancada aparece na intenção declarada por Flávio de alterar a Constituição de 1988, um movimento para aparelhar as instituições e impor um projeto que atinge as mulheres, a periferia e a produção cultural.

A esquerda já começa perdendo quando trata a internet como o futuro, sendo que ela é a nossa realidade como propulsora de mudanças políticas no mínimo desde a Primavera Árabe. No estado do Ceará, por exemplo, candidatos progressistas como Gabriel Biologia e Léo Suricate deram uma aula no uso do campo virtual dentro das suas campanhas. A mídia tradicional — que ainda faz seus esforços para agir como opositora governamental — não é mais o suficiente, precisamos dominar o campo virtual, e entender que não existe moralidade e nem vantagem quando esse campo já é extensamente dominado pelas oligarquias e pelas big techs, controladoras de discurso e impulsionamento.

Nesse sentido, nosso portal se coloca como uma frente de combate aos discursos nocivos produzidos pela direita e que busca se inserir nesse contexto de domínio de novas formas de se comunicar com as mais diversas gerações que se interessam por música, cultura e consumo midiático. O portal Difonia sempre foi idealizado para servir como plataforma dos menos vistos, como voz dos menos ouvidos e como lugar de conquista de espaço para tudo o que vem da margem. Discutir música, cultura e consumo de arte é algo que entendemos como fundamental nesse processo de conquista de espaço de um discurso progressista e anti liberal no meio virtual.

O que queremos para o segundo turno:

A união é necessária mais do que nunca, especialmente sem termos uma perspectiva de terceira via marcante. Os partidos de esquerda que são oposição ao PT não tiveram expressividade o suficiente para diminuir a diferença entre Lula e Flávio. Se a virada milagrosa chegar no segundo turno, ainda assim serão anos difíceis com legislativo e executivo aparelhados pela oposição. É tempo de abraçar os indecisos e mobilizar os abstêmios para que o país não seja 100% entregue aos interesses externos do mundo endireitado.

Ao pensar em uma virada no segundo turno – a margem de diferença entre os candidatos é a menor da história em relação a combates possíveis no segundo turno desde a redemocratização. O número que mais devemos dar a devida atenção seria o de abstenções, que bateu o antigo recorde da infame eleição de 98, com mais de 33 milhões de abstenções. Uma virada se mostra completamente possível, mas o trabalho dentre esses 20 dias deve ser completamente diferente do que foi apresentado durante todo esse processo de campanha.

Planos de governo que indicam mudanças não só na jornada do trabalhador com o fim da escala 6×1 — que se tornou um dos pontos focais de seu plano —, mas também a criação de um Ministério de Segurança Pública como principal ponto de combate ao crime organizado, algo que a oposição acredita ser de prioridade externa. A intervenção de um Estados Unidos à beira do colapso econômico e popular também coloca o Estado como indutor do investimento e industrialização, o que a oposição se baseia no aporte de empresas privadas (vide comentar, em sua grande maioria, internacionais) e utilizando o recurso de IA como indutor da industrialização.

Se a família Bolsonaro colocou como ênfase central no seu lema o patriotismo e a transformação do Brasil como um ‘país de Jesus Cristo’, indo contra o conceito de Estado laico e, silenciosamente, promovendo a teologia da dominação, os planos de governo de Lula muito enfatizam o nosso país como soberania mundial enquanto os planos de Flávio praticamente entregam as nossas preciosidades a custo de nada a países que têm o simples objetivo de extrair por completo o que há de mais especial em nossas terras. 

Não há motivos plausíveis e cabíveis para um apoio firme e plano nas propostas da oposição, que preveem tanto um retrocesso no âmbito da Educação – enfatizando a expansão do modelo de escolas cívico-militares, expansão das escolas técnicas visando formação de mão de obra barata e o sucateamento das universidades federais, por conta da sua política de gastos públicos. O que sobra então? Apenas o ressentimento contra um único partido, uma canalização de ódio que mais se assemelha a sentimentos atrelados ao lado futebolístico brasileiro do que a um pensamento racional, se realmente o Brasil está em passos de vertigem econômica e social, além da dominação dos fundamentos do Bolsonarismo, este, que mal sabe distinguir quais são os princípios da direita ou o que ela representa.

Quem anulou ou deixou de votar precisa entender que a conta desse retrocesso alcança todo mundo, e que ir às urnas no segundo turno para votar em Lula e pensar além dos próprios interesses é o caminho para preservar o espaço que permite à classe trabalhadora continuar organizada na defesa de seus direitos. Dar um voto branco ou um voto nulo no dia 25 é entregar o Brasil à mãos que não só têm a liberdade de endossar as declarações misóginas de seu pai — e mentir em inúmeras instâncias sobre o seu envolvimento com o banqueiro preso Daniel Vorcaro acerca do financiamento de um filme para a biografia do mesmo —, mas também ser o que o seu eleitorado classifica como bandido, já que ele é figura focal do esquema das rachadinhas.Evidenciando isso, apertar o número 13 nas urnas se torna não só um ato político já verificado, mas um atestado de sobrevivência da consciência de classe e a expurgação do individualismo que vem ganhando um espaço aterrorizante na nossa sociedade.

O que queremos para o futuro:

Um país sem cultura é um país sem nação. Com a posse de Flávio Bolsonaro, tudo isso fica em jogo. As músicas, álbuns, artistas e produtos culturais que amamos podem ser destruídos ou silenciados. Na terça-feira (6), o candidato do PL disse que prevê alterações na Constituição Federal de 1988. Para piorar o cenário, voltou a ganhar força nas redes sociais o Projeto de Lei 994/2026, de autoria do deputado federal Capitão Augusto (PL-SP), que propõe extinguir a Agência Nacional do Cinema (ANCINE) com o objetivo de transferir suas competências regulatórias para o Ministério da Cultura. É com esse tipo de gente que estamos lidando. A arte serve como uma forma de retratar seu respectivo tempo. Esperamos que não voltemos a escrever versos de tortura e repressão, muitos deles feitos de forma ambígua devido às ameaças na Ditadura. 

Queremos ouvir, escrever e ser a nossa liberdade. Quando nós ganhamos, choramos pelo sufoco que foi. Pela batalha que é tentar continuar em uma realidade que todo dia corrói a sua alma. Quando eles vencem, o foco é o ódio. Então, não. Não somos todos iguais, e é a nossa pluralidade e diversidade que está em jogo com a ascensão da extrema-direita no poder.

É por isso que o portal Difonia aqui escreve e se posiciona. Falar sobre música é falar sobre as pessoas que a produzem, sobre as histórias que ela carrega e sobre a liberdade de criar, questionar e existir por meio da arte. É também falar sobre o contexto de produção dessa arte, que está diretamente relacionada a como ela é feita e o que ela pode simbolizar, e isso é político. Como um portal que nasce da crítica e da produção cultural, entendemos que não existe cultura dissociada da realidade em que ela é produzida. Defender a pluralidade, a liberdade artística e o direito de diferentes vozes ocuparem seus espaços também faz parte do nosso trabalho. Este editorial é, portanto, uma forma de reafirmar aquilo que sustenta o Difonia: a cultura não está à margem da sociedade, e a liberdade de criar também é uma forma de liberdade que precisa ser preservada.


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