Crítica | New Avatar


★★★★☆
Um fator que sempre me impressionou dentro da obra da Kelela é a sua habilidade de capturar tudo de efervescente acontecendo no ambiente e transformar essas influências em algo bem próprio. Seus trabalhos até Raven são caracterizados por uma pesquisa profunda em sensibilidades – algo particularmente evidente no mix AQUAPHORIA, onde Kelela colabora com Asmara e fornece vocais para peças ambientes de artistas de renome, como Susumu Yokota, Aphex Twin e Biosphere – e em uma simbiose singular de pilares R&B com as visões originais existentes na música eletrônica mundial, seja numa esfera maximalista (Cut 4 Me) ou em abordagens mais introspectivas. No seu mais recente álbum ao vivo, In the Blue Light, essas canções eram reconfiguradas em composições soul tradicionais, numa roupagem bem mais intimista e que expandia ainda mais a versatilidade da artista. Mas o que parecia um passo celebratório para o lado, provou ser o primeiro indicador dos caminhos a serem tomados para a sua nova era. Esteticamente, seu trabalho desde a primeira mixtape buscava a colocar em evidência em alguma forma. Na capa de new avatar, a sua face é colocada em negativo, numa visão bem mais gradiente, uma mudança que subverte a sua obra num geral. Esse tom, de forma bem consciente, caracteriza todo o trabalho.

O rollout do álbum foi mais críptico que o normal. Kelela indicou referências diversas como forma de nos situar dentro do que estava a ser desenvolvido, como por exemplo, posts no Instagram com as capas de álbuns dos artistas Res e Incubus. Artistas mais inclinados a uma sonoridade pop rock, mas ainda bem fincados a experimentações. idea 1, primeiro single faixa que inicia o trabalho, foi uma experiência ainda mais desorientadora. Fãs e jornalistas foram rápidos ao aplicar rótulos ao que estavam ouvindo, mas ainda que sejam novos territórios a serem explorados pela artista, fica evidente a forma como Kelela se insere dentro dessas sonoridades. Os riffs são sobressalentes, mas ficam enterradas dentro do mix de forma como elas fossem ondas sonoras flutuantes, de modo como se todas as influências rock fossem desconstruídas para que estejam a serviço de sua regente.

Por conta disso, o shift aos momentos mais eletrônicos não parecem abruptos. point blank é um corte mais direto, dançante, onde as guitarras são substituídas por texturas future garage e beats jungle, um corte bem mais característico do trabalho de Kelela. Os momentos mais inspirados de new avatar são quando essa amálgama de influências convergem dentro de uma mesma canção, tensionando a forma em que elas se desenrolam. goin down inicia como uma canção pop rock normal, e conforme a música vai progredindo, texturas eletrônicas entram na composição e transforma ela numa besta completamente diferente. Sendo a intérprete fantástica que é, Kelela conduz toda essa atmosfera de uma forma bem irresistível, num trabalho camaleão que muda de cores como se fosse algo indubitável.

A seção mais focada em guitarras que se inicia em against me e vai até linknb é o momento que mais entusiasma em todo trabalho, pois Kelela busca caminhos mais ambientais de forma que não coloque em jogo toda a atmosfera a ser desenvolvida, e nesse caminho existe um risco muito bem vindo que a artista parece construir todo o mote de new avatar. Os timbres da guitarra e a forma como Kelela usa o espaço para construir as suas músicas me parece bem remanescente do que a plataforma Nina Protocol já caracterizou como “cloud rock”, assim como o que há de mais efervescente na cena rock dinamarquesa, como ML Buch e Fine. Músicas como crystalize e retaliation lullaby parecem compartilhar um parentesco bem forte com as contemporâneas dinamarquesas, mas o que sobressai é a entrega vocal bem apaixonante que nunca deixa de permear o trabalho, nem nos seus momentos mais letárgicos, o que deixa new avatar mais próximo de álbuns como I Killed Your Dog da artista L’Rain, que trabalha elementos de rock de forma similarmente eclética.

Essa abordagem mais intimista que caracteriza a seção de guitarras desse álbum parece também dar o tom a seção final mais focada na música eletrônica. Ainda que apoiada em andamentos mais dançantes e sonoridades mais familiares para aqueles que acompanham seu trabalho, músicas como don’t piss me off, new life forms e the bridge operam de uma forma bem serena e confiante, em abordagens mais minimalistas e sensoriais. De forma que essas abordagens mais pop não sejam destoantes de toda a experimentação que energiza new avatar.

new avatar é mais um álbum testamento de uma das grandes artistas deste século, e nesse ponto do campeonato eu acredito que não exista nada que Kelela não seja capaz.

Selo: Warp Records

Formato: Álbum

Gênero: indie rock, R&B, eletrônica

 


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