Revisitando | Blonde

O “Revisitando” é um quadro criado com o propósito de retomar lançamentos que, mesmo após algum tempo desde sua estreia, ainda despertam discussões, reflexões ou novas interpretações. A proposta é revisitar álbuns, músicas e outros trabalhos que merecem ser redescobertos sob uma nova perspectiva. Leia abaixo os comentários da nossa redação:

Gabriel Hurtado

Blonde é tão complexo e enigmático quanto o seu lançamento. Não se sente a década passada entre as melodias (e ausência das) dentre as exatas uma hora de duração. Sua narrativa permanece intactamente oblíqua e cínica, mesmo após destrinchamentos tão detalhados que parecem ter sido oriundos de seu próprio criador. Em minha consciência, parece que até o seu próprio criador perdeu a direção dentre a sua criação. Não há uma narrativa linear ou complexa, mas retém o ouvinte exatamente no princípio básico que ficou perdido dentre os 60.000 anos de sua criação: música foi feita para ser sentida e comunicar. Blonde é o epítome do que a música significa para o ser humano. As linhas de violinos irregulares de Pink + White acordam memórias latentes de períodos dispersos, mas igualmente fantásticos, da infância. O cântico denso do reconhecimento do vazio próprio e o desespero da necessidade de ajuda em “Solo” remonta tempos difíceis e árduos, nos quais a dúvida entre solidão e solitude torna essas em sinônimos. Cada música tem o seu próprio mundo, o próprio sentimento, o próprio universo, mas todas se entrelaçam de uma forma que é incompreensível aos olhos humanos, mas entendida por completo pelo coração humano. Blonde é a dualidade da vida, uma hora em eterno êxtase, outra em eterna dúvida e sordidez. Blonde é algo impossível de ser replicável, pois nenhuma vida é replicável. Todos ouvem, mas cada um processa aquilo de forma singular. Frank Ocean conseguiu o impossível, conseguiu atrelar o compreensível com o incompreensível. Blonde é, para mim, a melhor peça de arte já criada por qualquer ser humano.  

João Pedro

Como alguém que acompanhou todo o rollout surpresa na época, os 4 anos entre Channel Orange e Blonde pareceram uma eternidade. Hoje, 10 anos depois, alguns singles esporádicos, shows divisivos e um sumiço notável na mídia, a sensação que fica é que ainda há o que digerir e desvendar em Blonde. Difícil não tornar um texto como esses pessoal quando é uma obra que me acompanhou dos 16 anos até meus 26, mas as mudanças dentro de mim que esse álbum acompanhou são análogas a toda mudança no cenário musical que ele gerou. Todo o cenário r&b, que no início da década estava ancorado em pesquisas e sonoridades diferentes quasi-futurísticas (ArchAndroid, Black Messiah, LP1) ou um faux-retrô quase anacrônico com sensibilidades mais ambientes (How to Dress Well, Rhye, Autre Ne Veut, Jai Paul), Blonde foi perspicaz em juntar essas diferentes abordagens e sair com um projeto tão fresco como atemporal, reverberando com força 10 anos depois. Não imagino álbuns como Igor, When I Get Home, Negro Swan e até obras mais palatáveis e comerciais como After Hours saindo sem os moldes que Blonde colocou em voga. Se os 4 anos entre 2012 e 2016 pareceram uma eternidade, os 10 anos de Blonde com um silêncio marcante de seu criador me parecem apenas uma vírgula frente a magnitude dessa obra testamento. 

Gabriela Caligares

Nesses dez anos de Blonde, faça o exercício de se perguntar, ou de questionar qualquer pessoa, sobre o motivo de continuarmos tão obcecados por esse disco que dita as regras da nossa melancolia desde meados da década passada. Talvez exista uma memória afetiva alimentada por esse silêncio do Frank Ocean, o que nos faz tratar o álbum como uma verdadeira obra-testamento, como bem disse o João Pedro Leopoldino mais acima. No entanto, toda a grandiosidade de Blonde se revela por completo quando lembramos do ensaio de Matthew Schnipper na The New Yorker, publicado em fevereiro de 2023, no qual o jornalista relata que, após a perda repentina de seu filho de apenas vinte e dois meses, acabou se tornando fluente em apenas duas línguas: o inglês e o próprio Blonde. Essa fluência faz todo o sentido porque o disco se desenha essencialmente como um inventário de pequenos lutos que marcam a nossa transição para a maturidade, seja na despedida da inocência que grita no encerramento de “Ivy”, no peso da solidão que acompanha o amadurecimento em “Nights”, ou no silêncio de “Self Control” quando as relações simplesmente desmoronam sem que haja um culpado. E tudo fica ainda mais pesado quando voltamos os ouvidos para “White Ferrari”, uma composição que se revestiu de um tom quase profético após o acidente de carro que tirou a vida de Ryan Breaux, irmão do próprio Frank, fazendo com que as linhas que encerram a música sobre sermos maiores em outra dimensão soem menos como uma ficção romântica e mais como o apelo silencioso de quem precisa de um abrigo para as perdas que não têm conserto por aqui. No fim, a resposta para essa obsessão de uma década é que voltamos para o Blonde porque ele é o único lugar onde não conseguimos nos esconder de nós mesmos, desarmando as nossas defesas para dar o espaço exato que as nossas dores e lembranças precisam para existir, o que faz desse álbum a trilha sonora perfeita para tudo o que a gente tenta ocultar do mundo. 

Taynara Lima

Blonde é aquele tipo de álbum que você consegue lembrar exatamente onde estava quando escutou pela primeira vez e são trabalhos desse tipo que se carregam para a vida. Assim como o João Pedro compartilhou acima, é quase que impossível não levar esse comentário para um lado pessoal visto que é um disco que me acompanha desde os 16 anos. Indo contra a maré da cena pop e R&B da época, Frank Ocean retorna quatro anos após Channel Orange com uma produção minimalista e composição mais introspectiva, transitando sobre diferentes temas: amor, inocência, mágoas, passagem do tempo, nostalgia, anseios, raiva, luto, solidão, sexualidade e masculinidade. Cada música é marcada pela forma única do cantor de contar histórias tão pessoais e impactar quem ouve, não importa em qual fase da vida. Algumas pessoas costumam brincar com o “sumiço” do Frank Ocean, que inclui diversas questões pessoais e a morte do irmão caçula, mas ele segue presente com o legado do Blonde, um álbum que, mesmo uma década depois, continua mais atual do que nunca. 


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