
Em uma segunda-feira chuvosa, Rosalía decide fazer um show no Rio de Janeiro na Barra da Tijuca, com a promessa de trazer seu quarto álbum de estúdio Lux à vida ao lado de sua própria orquestra, e conseguiu fazer muito mais do que isso. Confesso ter demorado um certo tempo para escrever esse texto para dar tempo de assimilar o impacto e calibrar as emoções do momento em que pisei fora da Farmasi Arena, mas também não poderia ter feito nada durante os 14 dias que se sucederam do show até aqui a não ser aproveitar as memórias e boas vibrações que o show trouxe.
Rosalía é uma daquelas artistas que você nunca vai ver outra pessoa fazendo algo igual ou parecido, seja por cantar em 13 línguas em um álbum, ou por sua regionalidade tão expressiva e que, a cada novo trabalho se desdobra em mais diversas outras formas cada vez mais bonitas de se ver. Começando na mídia como uma ex-participante de reality de calouros fracassada, a cantora entendeu desde cedo que estudar seria a chave do seu sucesso.
Parece que a tradição em estudar e aprimorar seu fazer artístico permanece para além de sua graduação em Flamenco, isso fica evidente não só pela profundidade temática e sonora apresentada em Lux, mas também em sua visão acerca dos espetáculos. Se na Motomami tour a espanhola conseguiu reinventar a maneira de utilizar as câmeras e os telões em relação à apresentação em tempo real nos shows de música pop em geral, nessa turnê Rosalía aprimora a própria habilidade.

Todos os frames daquele telão conversam com o público nos ângulos mais milimetricamente calculados para evidenciar o que a artista traz de melhor: sua presença. O jogo de câmeras ajuda não só na narrativa simples e encantadora do espetáculo, mas também ajuda a trazer o sentimento de conforto e intimidade que Rosalía tem com os palcos.
A cantora está, mais do que nunca, segura e confortável, tanto com a estrutura cenográfica quanto com o país em que estava se apresentando, sua desenvoltura na língua portuguesa trouxe o público muito próximo dela. Inclusive, esse jogo de línguas que o próprio álbum carrega pôde ser observado da forma mais bonita, na relação entre artista e seu público.
Não somos um povo hispanofalante, mas nos esforçamos muito para cantar cada letra das músicas presentes, afinal, ainda somos o melhor e mais caloroso público do mundo, e Rosalía sabe disso. Dava pra ver sua ansiedade em nos apresentar suas novas músicas, seu prazer em cantá-las e compartilhar todo sentimento que colocou nelas junto das pessoas, e isso fez aquelas duas noites serem tão mágicas para quem presenciou.

Com um lugar extremamente privilegiado, na grade do golden circle (nome utilizado para o que chamamos de pista premium), pude assistir atento cada nota vocal que saia de sua boca como uma palavra qualquer, sem importar sua altura, dificuldade ou duração. Entendo todas as pessoas que acreditam e acusam a cantora de fazer uso do playback, pois é muito impressionante e quase sobre-humano a maneira natural como Rosalía canta tão bem todas as notas que atingiu no estúdio, sem se mover, com diversas tentativas possíveis, mas estando ali, presenciando sua performance, é notável que não estamos falando de uma vocalista regular.
Toda a peça — que trata de forma um tanto metalinguística sobre o fazer artístico, e fazer da arte, sua principal conexão com a espiritualidade — brinca com elementos de museu e arte clássica de um jeito camp um tanto sofisticado. Sem se levar a sério, mas cumprindo com as expectativas de um álbum denso, que é carregado de instrumentos acústicos e orquestrais, letras filosóficas e místicas embebedadas na ancestralidade de mulheres que se dedicaram à fé e sobretudo ao que mais amavam.
No fim das contas, é um show que fala sobre amor, sacrifícios, devoção e espiritualidade de uma forma muito singular e até leve eu diria, mas que conecta todas as pessoas que desejam presenciar o talento e carisma da artista. Isso, sem falar da orquestra, que é um show à parte, contando com a ilustre presença da maestrina Yudana Gómez, uma presença impactante, reluzente e que além de tudo sabe sambar muito bem.

Talvez eu ainda não tenha palavras precisas para descrever como foi cada momento do show, mas definitivamente é um daqueles concertos que você sai amando ainda mais a obra da qual ele se dedica em contemplar. O mais engraçado nisso tudo é que muitos esperavam uma caricatura de ritos católicos ou exemplos literais de uma missa, o que parte do show até brinca com isso e de si mesmo, como em algumas interludes dos dançarinos imitando a performance de ‘Mio Cristo Piange Diamanti’, no entanto, Rosalía mostra que tudo o que quer pregar é seu amor pela arte.
É um show que valoriza o simbólico, o singelo e o real, conseguindo ser tão envolvente que em determinados momentos ninguém tinha coragem de erguer o celular e apontar sua câmera, pois o que precisava ser visto e vivido estava diante de seus olhos e nenhuma lente poderia captar. Voltei pra casa ouvindo muito mais do Lux e percebendo aquelas coisas que a gente só consegue depois de uma experiência ao vivo, criando de fato novas conexões e significados para a obra, que no fim das contas, é uma das coisas mais incríveis que um show pode nos proporcionar.


