
★★★★☆
Terminando o seu verso na estrelada “Circa” com o finado e anti-fenomenal rapper KA, Sage Elsesser deixa uma pergunta presa, jogada no ar, mas que funciona quase como um mantra dentro do seu espectro musical. (“Can’t you see that all this is cyclical?” — “Você não enxerga que tudo isso é cíclico?”) Ele finaliza em um verso majestoso e adentra novamente em um ciclo, este sendo o refrão, em repetição. O rapper não foge das perguntas, e esta, que pode ser interpretada como inúmeros ciclos – com uma especificidade mais incisiva sobre o ciclo do luto –, este que não tem um ponto final e se torna quase um evento necessário nas vidas humanas.
Afinal, qual ser humano nunca enfrentou, qualquer que seja o tipo, o luto? Seja o fim de relacionamentos, a partida de um ente querido, a ausência de um companheiro doméstico, aquele que subia em seus braços sem ao menos saber a sua língua. Todos nós já enfrentamos o luto, mas nunca soubemos a forma certa de enfrentá-lo. Navy subjuga essa questão, aceitando e literalmente se entregando ao processo de corpo e alma, vide o título do álbum em questão. O catálogo de emoções e estados em que Navy norteia suas músicas, seja o luto, trauma, alegria ou esperança, é quase o vento para o homem que caminha. Você pode não senti-lo, mas ele está presente, vem em ondas. Seja por ventanias ou brisas, mas permanece ali, nunca se dissipa, até porque, se dissipar, não seríamos humanos.
Em Sir Render, Sage trabalha essas emoções com mais liberdade do que em qualquer álbum de sua carreira, assim, trazendo também o caleidoscópio de vozes mais impressionantes que qualquer entusiasta do hip-hop abstrato poderia imaginar. Desde a dupla magistral Armand Hammer, com um billy woods entregando mais uma vez uma pintura contemporânea – aquela sentida e quase palpável aos ouvidos em ‘’Residuum’’ – a constatação do poderio conjunto entre Navy e Sweatshirt em ‘’Belladonna’’, destaque claro dentre os 44 minutos de música do álbum, assim como a nostalgia e o arrepio ao início da ríspida e potente voz de KA em “Circa”.
O terreno é muito mais expansivo, pela disparidade mais clara entre os instrumentais, com a amálgama entre o violino quase descoordenado junto com o snare da linha de batidas em ‘’Residuum’’, demonstrando quase um caos controlado, a batida das ondas antes de um tsunami. Navy utiliza todos os artifícios possíveis para comunicar o caminhar lento e pesado de um homem em um caos completo, mas que, ao encarar os seus traumas e medos, começa a ver uma esperança e uma claridade espiritual, assunto recorrente na segunda parte desta trilogia, Memoirs in Armour.
Por mais que haja uma clara direção que o rapper deseja seguir, como a introdução do personagem de mesmo nome do título, Navy demonstra alguns leves tropeços quando não acompanhado de suas participações, evidenciados principalmente no começo do álbum. “Baron” segue uma linhagem de boombap em mistura com a vertente abstrata, mas não chega a uma experiência incômoda, e sim se transforma mais em um ponto não tão interessante, quase que tedioso quando misturado com os pontos altos do álbum.
Mesmo com essas oscilações dentro da trilogia, Navy se mostra o mais cru e pé no chão possível. Os instrumentais luxuosos e pomposos de The Sword são trocados pelos pratos pouco cintilantes e snares mais opacos, vide “Belladonna”, reverberando na participação dentro da música. Earl volta no tempo e nos entrega um flow semelhante àquele visto há quase uma década em materiais como Doris, mas com uma maturidade vocal e uma presença muito mais firme do que o que era o jovial rapper naquela época.
Sir Render fecha (ou começa) com uma maestria que apenas um potente nome como Navy conseguiria. Existencial o suficiente para fazer as perguntas certas, consciente o suficiente para evidenciar que não há respostas para as suas perguntas, Sage constata, com ternura, que a sua vertente não é de ‘sad rap’ como a mídia tenta rotulá-lo durante o rollout deste álbum. Ele é apenas um poeta, um pintor que pinta olhando para o mundo. Se sentes que és triste, é apenas o mundo em sua mais pura forma, devastador e triste. Mas o mundo não é a vida.
Selo: Freedom Sounds
Formato: LP
Gênero: Hip-Hop, Drumless


