Crítica I ALTO & BOM SOM

★★½☆☆

Com um desabafo potente marcando o começo do disco acerca da pouca visibilidade de artistas em um cenário que constantemente vem se tornando ainda mais metricamente preciso, ALTO & BOM SOM, terceiro projeto do artista sergipano no ano nominal, tem como assuntos permeantes a denúncia do cenário político atual, bravados de esperança e a reafirmação do poder da cena underground na formação do que se intitula o ‘hip-hop de verdade’. Mesmo que discursos como esses já tenham sido vistos em inúmeros projetos musicais, até hoje a voz de andreblves se faz necessária, oriunda do menor estado em nosso território, faz do projeto um ponto único no panorama do hip-hop atual. As vinhetas inseridas dentro de cada música são milimetricamente condensadas, sendo com certeza o ponto focal e mais interessante dentre o estúdio. 

Os instrumentais, que permeiam entre o hip-hop abstrato, grime e o jazz rap, mostram uma flexibilidade e certa coragem do artista ao tocar em cada aspecto do rap que muitos discos têm medo de executar. As participações especiais também demonstram não só a criatividade dentro do estado, mas são o ponto que mais transforma o disco, com o destaque caindo no colo da artista Caiane, demonstrando um refrão poderoso e um verso igualmente forte, com cânticos de liberdade e recusando a escravidão atual na relação entre empregado e chefe. 

Mesmo com todos os pontos que formariam um disco emblemático, o artista peca na falta de desenvolvimento de seus versos: muito diretos e pouco maturados, com alguns instrumentais que soam rudimentares demais, dando mais um aspecto de algo corriqueiro do que algo feito com intenção máxima. Esses problemas são evidenciados sobretudo pela primeira parte do disco, que não empolga ou traz a atenção do ouvinte de maneira precisa, mas que, a partir do interlúdio SOLO DO DJ, um misto de scratchs e vinhetas poderosas, mostra realmente a valia do projeto, na simplicidade assertiva e instrumentais que se desenvolvem com maior precisão. SECO NUNCA RASO, EXPRESSO SERIGY E PÉTALAS DO CORAÇÃO são, com uma certa folga, os pontos altos dentro da extensão do projeto, a segunda sendo um caleidoscópio que condensa as vinhetas que adicionam mais camadas para o protesto político do disco e evidenciam o recente abandono sentido por aqueles que vivem no estado. Em disparado, a música carrega o cerne do álbum e o melhor verso do rapper. O instrumental, que começa com uma linha de snares mais acelerada e, quando chega no ponto de fusão, se torna um campo insólito e quase sórdido, com a entrada de aspectos de chopped and screwed, vertente crescida e também um aspecto que evidencia o underground, mas muito mais vista na América do Norte. 

Mesmo com ótimas ideias e com uma boa intenção por trás, ainda há escassez de uma direção mais direta e concisa no que se diz respeito ao assunto central do disco. O projeto falha ao atingir um ponto de ebulição, em que o ouvinte se sinta imerso nas denúncias. Você não se sente entre as suas vivências, e nem dentro dos problemas que os inúmeros artistas evidenciam durante a extensão do disco. Você ouve, mas pouco sente. Pouco entende. Os versos passam batido, mas por pouco não grudam em seu peito e fazem deste projeto algo realmente brilhante. 

Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Hip-Hop


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