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Na fronte, dois homens de face tostada, com olhares distantes e complexos. Enquanto um contempla o que pode ser interpretado como o futuro, aquilo que está à sua frente, em antítese, o outro, com semblantes muito mais contidos e absortos em suas próprias preocupações e traumas, fita o chão. Desacreditado e engolido pela sombra da confiança de outro homem, não vemos roupas ou qualquer outro tipo de cenário. O tom sépia completa a imagem. Em um entendimento popular, há esta crença de que a estética intriga o homem, causando sensações que ou nos interligam naquela coisa, ou nos distanciam. O sentimento que acabei de descrever consegue causar os dois naquele que observa. Esta é a fronte do projeto musical de billy woods, figura igualmente realista e opaca do submundo do hip-hop americano. Mas tal descrição cumpre papel narrativo suficiente para a comunicação inicial do artista, mesmo não sendo o canvas completo, que apenas se revela quando a consciência daquele que escuta é afetada o suficiente pelas linhas de cunho complexo e surrealistas do poeta.
A fronte em questão é uma aproximação da desconhecida pintura ‘’Two Moors’’ do pintor dos Países Baixos, Rembrandt. Com a intenção de atribuir um sentido mais profundo aos ‘’mouros’’, nome dado aos africanos no século XVII, colocou os africanos em roupas referentes à ‘’burguesia africana’’ aos seus moldes. Em tons sépia, os homens em figuras completamente expostas se tornam contundentes, mesmo que o da esquerda demonstre uma fragilidade maior. Com a aproximação apenas nas expressões e não nas vestimentas, billy já comunica para a sua audiência o que é talvez o assunto central de toda a sua discografia: afropessimismo.
Um homem de origem colonizadora, pintando sobre a sua percepção, fruto de pensamentos e visualizações de como o africano era culturalmente colocado naquela época: sujeitos cansados, de olhos esbugalhados e peles marcadas pela constante exposição a trabalhos exaustivos. As roupas são um mero recurso estético, mas o tom, as faces e as expressões corporais mostram o encontro da percepção com a cruel realidade. Mesmo que houvesse boas intenções por parte do pintor, o resultado demonstra o que é o racismo em sua forma mais arrepiante: conscientemente inconsciente, livre da violência e por meio de pinceladas e percepções. E isso é apenas a fronte do álbum. A dissecação da figura da cultura afro não era um assunto de novidade dentre a discografia do rapper americano, mas em Aethiopes ela ganha camadas ainda mais densas e extremas. A linha singela que abre o álbum é acompanhada de um sample de Alemayehu Eshete que dita, em poucos segundos, o tom claustrofóbico e quase inquietante que permeia por todo o álbum:
I think Mengistu Haile Mariam is my neighbor
Com simples linhas e um loop que conversa com a nomenclatura do próprio álbum – este sendo uma música de vertente ethio-jazz, justapondo as raízes africanas com um gênero em constante diáspora – o rapper americano seringa em nossas peles a paranoia que a teoria filosófica que a sua carreira é trilhada: a paranoia arrepiante, resultado do processo de colonialismo. Ele coloca o mal no próprio vizinho e, construindo a introdução do álbum, esse mal latente vai se instaurando em sua própria casa, mesmo com aparatos característicos de uma falsa segurança, não conseguindo conter esse mal latente geracional. Em poucas palavras, todos os versos deste projeto são gestados com dissecações, comentários e verdades sobre todos os questionamentos dentro da filosofia que o mesmo carrega, seja sobre o processo de colonização europeia, o êxodo já mencionado e a transição de traumas entre gerações de jovens negros.
Além desta densidade prévia adquirida, podemos observar a construção desta paranoia, deste mundo visceral e obscuro pela excelente escolha de samples, instrumentos de origem africana e, com grandes créditos a Preservation, produtor que, junto do rapper, constrói uma química que é quase percebida como algo estranho. O produtor principal constrói o mundo de maneira clínica para que a voz pesada e ainda não desenvolvida – soando quase como um jovem adulto conversando com um opositor – de billy teça visões de mundo irrequietas com um toque de humor ácido que apenas o artista consegue.
As buzinas crescendo em “Hard Feelings” enquanto billy woods constrói uma imagem mais decepcionante e completamente mundana atrás da outra, a percussão sussurrante de ‘’Wharves”, que é acompanhada de ecos glaciais de mbira – algo semelhante a um piano de polegar de origem africana – que vai se absorvendo e se tornando mais dissipável conforme a música vai tomando forma. Há toques de interpretação, densidade e motivos em cada extremidade do álbum. Enquanto o projeto vai destrinchando as suas camadas, mais inerentes se tornam essas mazelas e a filosofia vai ganhando contornos ainda mais densos, com este projeto se tornando talvez aquilo que estabelece a discografia de woods como uma das mais completas de toda a história do hip-hop. O rapper, ao contrário de sua face, não esconde o que sente, as suas convicções e verdades em metáforas super elaboradas. A sua crescente desesperança com a emancipação do negro no mundo atual, em suas palavras, se torna um futuro próximo, em que não haverá carros voadores, mas a absolvição de Rachel Dolezal.
Aetheopis agrupa em menos de 40 minutos o que o hip-hop contemporâneo abandonou por completo durante a sua grande evolução: a convergência absoluta entre o estranhamento de sua história e o artisticamente impecável. A penosa trajetória e os seus danos, a verdade não mascarada e completamente pungente. O gênero em questão é fruto de uma diáspora, e, com ela embebida em cada milímetro deste projeto, billy woods cria o essencial para o entendimento dos traumas gerados pela colonização ininterrupta europeia nos dias de hoje em formato de áudio. Podcasts não seriam tão sucintos e textos não seriam profundamente intrínsecos como essas treze faixas se apresentam. O desenterrar de traumas coletivos e a interconexão entre a comunidade preta global é o que quase nenhum artista tem a capacidade de tornar crível e audível e a coragem de executar. Enfim, é como ele mesmo diz: “It’s a freedom in admitting that it’s not gonna get better.”
Apenas vá ouvir. Sua vida vai mudar.
Selo: Backwoodz Studioz
Formato: LP
Gênero: Hip-Hop / Abstract Hip-Hop / Drumless


