Crítica | SOCK IT 2 MY POCKET

★★★★☆

Pague o que me deve. Bem, esta é a síntese da famosa frase-título, dita e popularizada culturalmente por filmes, músicas e vivências de caráter perigoso. “Coloque no meu bolso” ou “socket it to my pocket” soa mais como algo ordenado, uma demanda a ser feita, em vez de um pedido. Há de se ouvir entre ad-libs de artistas que buscam o luxo por meio da energia depositada em tal tarefa. Rome, o mesmo que já contou em entrevista à VIBE MAGAZINE que toda a energia que ele coloca no mundo não é de graça – tudo tem o seu preço. E, mesmo que, linearmente, possamos associar esse título a uma redenção ou busca por prestígio, o artista nativo de Queens faz com que o título soe muito mais como um sopro cansado entre os seus pulmões. 

Não é natural vermos um rapper de tal calibre soar equilibradamente nocivo e desesperado ao mesmo tempo.  Esse caos, que se delibera durante o início do álbum com ‘’Yellow Brick Road’’ e se dispõe até ‘’Son of A Gun’’,  do instrumental – a combustão entre vocais distorcidos femininos, pequenas cordas de guitarras elétricas e um snare sujo – até as profanações e brados de glória, que agora se tornam mais como uma tentativa de afirmação sobre si mesmo em sobrevivência. Porém, o artista mostra que está lidando com o peso da culpa de ter sobrevivido a tantos males de experiência própria, etodas as conquistas soam amaldiçoadas. Tudo tem o seu preço. 

A perspectiva que podemos ter é que o nova-iorquino destilou o sucesso de sua célebre estreia de estúdio e observa os pesadelos – neste caso, o peso de algo à altura – tomarem forma e o perseguirem entre os seus sonhos. Há resquícios de dor em sua entrega, que ainda mantêm o aspecto urgente, mas não mandatório, que havia em seus trabalhos anteriores. Ele rima sobre a própria dor atrelada a referências populares, citando os horrores de Stephen King em uma inspirada e plena ‘’Dreamcatcher’’. A luxuosidade característica da nova vertente pode ser vinculadaa sua antiga gravadora, mas sente a urgência da detalhada vida de altos e baixos com mais afinco ao seu peito, não se utilizando de convenções já batidas dentre o seu catálogo. Emana de sua personalidade a necessidade de recontar histórias, experiências, mas agora tudo soa com uma roupagem muito menos direta e frenética do que havíamos visto em músicas como ‘’Heart on Froze’’, ‘’Soulja Boy’’ e entre outras. Músicas como ‘’Belt 2 Ass’’, ‘’.22’’ e ‘’Cocaine Coltrane’’ compartilham grandes similaridades, mas, se inseridas naquele período de tempo, soariam desconexas com o que o hábil liricista propunha. Com mais ênfase, o ritmo mais cadenciado e com influências melódicas de ‘’Time & Place’’, ‘’High Speed’’ e ‘’I Don’t Know’’ certamente seriam vistas como incógnitas do nova-iorquino anos atrás. Entretanto, hoje, mostram não só a sua habilidade versátil, mas também as suas emoções se tornaram muito mais claras ao longo do tempo. 

O homem não atrela com peso as relações amorosas, colocando o seu coração no gelo ou hipersexualizando-as. Ele entendeu a passagem de tempo, como os seus pensamentos fugiram da base das ruas, e agora, ele as observa com muito mais leveza e importância. O artista conversa com Deus de forma muito mais clara e direta, citando-o com a reverência de um mudado soldado das ruas, sem pedir perdão por ter matado um oponente em batalha, mas buscando explicações sobre as suas dores interiores, com a voz dele sendo a sua consciência muito mais fresca. Mesmo assim, não se iluda; ele ainda encara o seu distribuidor nos olhos e caminha, mantendo a valentia oriunda das ruas. 

Querendo ou não, mesmo que amadureça, seja mais claro e limpo, esta é a essência de um lutador: um homem que cortejou o sucesso apenas décadas desde o seu início, lutando em batalhas e crescendo o seu nome no boca a boca, de vídeos escassos no YouTube até o grande contrato. Décadas parecem séculos, e a tão esperada fama chegou aos seus pés. Mas, como o próprio Rome Streetz concretiza: tudo tem um preço. 

Selo: Mass Appeal
Formato: LP
Gênero: Hip-Hop / Drumless / Boombap


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