
★★★½☆
Os melhores momentos de Humor Negro são quando o rapper experiente se lembra de que é um exímio letrista. Metáforas que se misturam com duplos sentidos e triplos, além de linhas de caráter mordaz, fazem o músico retornar à ótima forma após álbuns mais experimentais dentre a sua discografia, como a funk-infused O Veneno do Escorpião. A produção é refinada, com recortes de samples que trazem um frescor ao seu catálogo consistente, mas não excelente. Em “Endrick”, o rapper tece comentários intimistas sobre a sua personalidade em um boombap tímido, regido por plug-ins de instrumentos ao vivo. O single que precedeu o lançamento do álbum é com certeza uma das suas melhores faixas, mostrando com exatidão o quão amadurecido e criativo o rapper é, tentando sempre expandir em cada passo as suas influências, mesmo que saíssem pela culatra. “Humor Negro”, que é um aceno à nostalgia pela sua famosa tag, é um boombap com aspecto ‘’sujo’’, extrai o melhor de Froid e Ciça, essa que evidencia com propriedade o seu talento e entrega em uma batida que se molda aos emcees regentes.
Ainda com linhas perspicazes, as diversificações que aqui se apresentam servem mais para desnortear o ouvinte do que para trazer respiros sadios dentre as linhas densas que precisam de um ouvido apurado para serem absorvidas. A afrobeat-inspired ‘’Futuro’’ é agradável, com bons vocais de Nathi, mas nada memorável, soando mais como uma vinheta do que uma música propriamente estruturada, uma música de fundo para compras em lojas de fast-fashion. “Dark Dance Hall” perde o seu potencial com as camadas de auto-tune exageradas nos vocais de Froid, que soam mais como uma paródia do gênero do que uma ideia realmente maturada.
Com vinhetas que tiram o ouvinte do eixo da experiência, Humor Negro é ainda um esforço bem-sucedido do rapper mineiro de relembrar a uma geração atual que ele ainda é um dos letristas mais bem-dotados da década passada e dessa década, com álbuns como Gado e O Pior Disco do Ano sendo peças-chave para evidenciar o seu poderio com a caneta e microfone. Pena que os momentos dentro desse projeto que flertam com essa excelência tenham uma curta duração, pois Froid é realmente um MC especial, de talento único.
Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Hip-Hop / Boombap / Afrobeat


