
O “Entre Nós” é um quadro que surgiu no desejo de trazer uma discussão entre os redatores a respeito de determinado lançamento em alta, principalmente álbuns de música pop que não receberiam necessariamente uma crítica em seu lançamento (por não serem o foco do site), mas que entendemos que possam gerar algum tipo de discussão interessante. Leia abaixo os comentários da nossa redação:
É bem evidente a posição privilegiada que a Carly ocupa enquanto artista pop hoje, gozando de um prestígio crítico e com uma base fiel de fãs que acompanham suas ideias com afinco. Day and Night é o trabalho em que ela mais abraça suas próprias influências e sua visão de música pop. Num processo iniciado no lado B do Dedicated, a veia oitentista que marcou a sua música desde o Emotion foi lentamente sendo substituída por uma abordagem mais setentista da música pop, o que permitiu que seus álbuns fossem tomados por um ar mais psicodèlico e orgânico. Nesse sentido, Day and Night é o ponto conclusivo lógico de tudo aquilo que começou a ser desenvolvido no Dedicated Side B. Como resultado, o novo álbum não parece me envolver de maneira imediata como os seus trabalhos anteriores, mas a veia autoral desse projeto é algo bem marcante. Para quem acompanha a artista com afinco há mais tempo, é notório como ela se permitiu apoiar-se nas suas influências préviamente explicitadas no passado – Joni Mitchell, James Taylor, Leonard Cohen – de uma forma que até parece auto-indulgente, mas conforme vou me familiarizando com o álbum, é difícil não se envolver na veia exploratória desse álbum e de respeitar o risco em finalmente bancar a artista que ela tanto quis ser nos álbuns anteriores. Ficam comigo os momentos em que Carly foge do pop tradicional e parte para caminhos não explorados, como o chillwave de Amalfi Coast, a produção meio dream pop em Good Fine Alright, o mergulho no uk garage em Hold Me to the Light, e Super Sage, com uma pegada ambiente psicodélica bem marcante, remanescente dos melhores momentos de FKA twigs e Oklou. – João Pedro Leopoldino
O talento para música pop da Carly sempre se manifestou muito naturalmente nos seus trabalhos, seja no imediatismo de EMOTION ou em sonoridades mais sutis como na dupla The Loneliest/The Loveliest – então fiquei curioso por um trabalho mais explicitamente ambicioso dela, um que delinea objetivos conceituais (a divisão em lados e sonoridades específicas, a associação de cada canção com os locais onde foram escritas, etc), mas o resultado apresentado também soa bem natural. Acaba não sendo aquele giro de 180º que parecia ser, mas isso funciona muito a seu favor, não é uma tentativa de soar alternativa, mas sim de tornar o seu estilo de pop em algo mais grandiloquente ao associá-lo com estilos de produção mais maximalista e composições mais intrincadas, um caminho que ela já vinha explorando pelos seus últimos três projetos aqui e ali. É um álbum que soa sofisticado, trabalhado e super-produzido, mas sem cair em nenhuma das armadilhas que essa ambição geralmente traz, desdobrando sonoridades menos convencionais com o selo de qualidade de composição pop típico da Carly, utilizando os estilos mais lisérgicos como intensificador das suas canções pop, assim como eleva seus momentos mais convencionais com a ajuda desses elementos – a divisão de lados é intencional, o lado “Day” é claramente mais orgânico, ensolarado e apaixonado, tendo aquela sensação de olhar estrelado e paixonite aguda já evidenciado pela estonteante faixa de abertura e atingindo seu clímax em “Burning Heart”, usando como justaposição canções mais sutis, enquanto “Night” se aprofunda nos sintetizadores estroboscópicos e uma entrega vocal bem mais sensual que você geralmente ouve da Carly, ela se aproveita bem de sub-gêneros do dance/house e transforma-os ao seu bel prazer em canções mais hedonistas. No final das contas, consegue ser o álbum mais coeso dela, apesar da variedade, pois é pintado com camadas de tinta similares e tece uma teia sonora que constantemente se referência e conecta os dois lados, criando assim um microcosmo quase cinemático, tudo parece fazer parte ali do mesmo universo e apesar de ser perfeitamente “divisível” em dois álbuns, os 85 minutos trazem sim uma experiência completa, que se intensifica e se acalma, mas não perde o fôlego. – Marcus Vinicius
Carly Rae Jepsen é uma das maiores artistas pop deste século. E eu poderia finalizar o texto bem aqui, mas quando se trata do Day & Night, não tem como não falar mais sobre. A canadense sempre foi conhecida por lançar projetos de lado b – e que talvez até tenha neste projeto, mas não sei afirmar –, então julgaria que lançar esse lado alternativo logo de cara foi uma grande jogada. Particularmente, o lado Night me agradou muito mais do que o Day, com canções densas, intensas e até que, de certo modo, chiques. “Amalfi Coast”, por exemplo, é uma grande canção dance, e que parece beber muito da influências de canções anteriores dela, mas que ainda há um quê de diferente. A consideraria como uma irmã noturna de “Psychedelic Switch”. Porém, a melhor canção do disco está no lado Day. “After All” abre o disco de uma maneira maestral e completamente imersiva, toda a composição da música é cativante e apaixonante, como um momento confortável com um grande amor. No fim, Carly Rae consegue ser uma artista formidável em um disco de vinte e quatro faixas, e não decepciona em nenhum momento sequer. – João Vitor


