Crítica | Deusimar

★★★★

 

As três primeiras mastigadas de um chiclete frutado deixam um gosto forte na boca, agradável à maior parte do público. Mas por quanto tempo? Totô de Babalong, em Deusimar, mostra uma voz ainda experimental, que assume essa característica como definidora. Ao longo das 11 faixas, o projeto se revela jovial e urbano, encantador pelas escolhas rítmicas inusitadas que conduzem o ouvinte pelo terceiro álbum do cantor baiano.

Antes de se entregar ao dançante universo que Totô exibe, corpos de tequila começa deliberadamente mansa, enchendo os ouvidos com a bateria sincopada do brega, que domina sua cintura e torna impossível ouvi-la parado. carne fraca segue a mesma fórmula, mas agora na roupagem de uma balada pop que examina as fragrâncias das ficadas de noite sim, noite não. Destaque para os instrumentos percussivos que ditam como os dentes e a língua se comportam diante desse corpo estranho na boca.

como foi pra vc? traz, no sax do seu início, muito do apelo identitário do brega. Nesse arrocha pop, a faixa parece amalgamar as anteriores enquanto trata do reencontro de amantes distantes. Os teclados sintetizadores aqui complementam o solo de sax, com uma ousadia bem-vinda, mas pouco vista no resto do projeto. O refrão dança com o sax e, ao menor deslize, te inebria. É aqui que o chiclete fica tão gostoso que mastigar parece movimento involuntário.

A experimentação tem um caráter geográfico muito bem demarcado. As referências mais sensíveis têm o mesmo sotaque que o cantor. Se isso ainda não era evidente, a divertida piseiro dos abandonados torna indissociáveis experimentação e território. O álbum, em seus pontos mais autênticos, bebe dos ritmos nordestinos. A presença aguda de Malu complementa a voz grave prostrada de Babalong.

Lindomar e bituca são âncoras sentimentais do álbum, que te prendem no cais da seriedade. macho man é de uma tranquilidade de trilha de novela do Manoel Carlos e funciona como uma carta apologética que pede licença, em vez de desculpas. Aqui as experimentações são menos excêntricas e a nostalgia tenta dar o tom. O final abrupto parece descuidado e causa confusão, sobretudo quando e aí me conta mais começa. A faixa é mais uma vez uma chamada ao passado, com um som que remete aos sucessos da banda Sampa Crew, com pianos etéreos que dão contorno a esse passeio no mar do cantor. 

Sabe quando você tá começando a pensar em cuspir o chiclete, já pelo cansaço de um sabor que não parece mudar, e aí, de repente, você faz uma bola, estoura, mastiga com os dentes caninos e vem um sabor muito mais pop do que todo o resto? É exatamente essa a alegoria para me ama na crise. O feat com LEOA é o momento mais techno: Totô brinca deliberadamente com as expectativas do ouvinte. 

chinesa tropicana é um retorno antes do adeus; tudo o que deu certo até aqui reaparece no tempo certo. A abordagem efêmera no amar, as baterias sincopadas, a assinatura geográfica. Um gosto tradicional antes do tchau.

Deusimar é um projeto ambicioso que flerta com as raízes culturais e as referências musicais de Babalong. Aqui Totô brinca com a dispersão do ouvinte. Os grandes choques de atenção provocados por faixas como me ama na crise e como foi pra vc? mostram que toda escolha aqui é pensada, até mesmo a do cansaço. Um chiclete de romã com gengibre num calor escaldante, recheado de surpresas que exigem um tempo na boca para aparecer. Quando o ouvido se acomoda, vem uma troca. Deusimar é o olhar carinhoso de Totô de Babalong sobre os muitos gêneros que atravessam a Bahia e o Nordeste. Um álbum que reconhece e brinca com sua própria cadência. Sempre divertido.

– por Kelvin Cruz. 

 

Totô de Babalong é um dos artistas que sempre me vem à mente quando me deparo com debates sobre os rumos do pop brasileiro, visto que esse terreno acabou se tornando um palco para propagar a estética da indústria norte americana traduzida como “profissionalismo” e “excelência”. Do contrário dessa lógica, sempre tivemos nosso bom e velho pop autoral sobrevivendo sob as camadas do underground, que não é o mesmo que Música Popular Brasileira, mas também não está muito longe de ser. 

De Marina Lima, a Marisa Monte, Céu e Tulipa Ruiz, passamos por eras importantes na música pop brasileira, até que, com a chegada de grupos como a Banda Uó e Bonde do Rolê, obtivemos o melhor dos dois mundos: tudo o que estava viralizando na internet em território nacional combinado aos gêneros dos lugares que estavam longe do Sudeste, como o brega, tecno-brega e até mesmo o forró. 

Mas como essa conversa chega em ‘Deusimar’? É simples, Totô de Babalong além de  cronicamente online, também registra uma das melhores coisas que o pop brasileiro é capaz de fazer: construir uma linguagem autoral por meio desse sincretismo musical que envolve raízes do brega, melodias chiclete, identidade artística muito bem definida e um toque de camp que só ele tem.

A persona do multiartista sempre me deixou bastante curioso, desde que vi seu primeiro clipe viral para a faixa “Caipirinha de Milão”. Não sei se pelo seu estilo excêntrico e sua forma sexualizada de se comunicar ou pelas imagens que sempre foram um tanto absurdas, sujas e sem nenhuma discrição. Isso tudo demonstra uma coragem de ser um artista independente com uma personalidade tão demarcada em um mercado que cada vez mais se busca o “normativo”, o “fofinho” e o “não-desafiador”. Felizmente, Totô se mantém e, agora, temos sua melhor forma.  

Para além desse contexto, o terceiro álbum do artista é na verdade um dos mais caprichados de sua discografia quando se fala em pesquisa, que, apesar de pouco explorada pelo público alvo de que se destina, é um tanto quanto consistente. Neste, acessamos um lado do compositor mais melancólico do que nunca, entre saxofones, sanfonas e elementos da bossa, Toto nos conta histórias de amor, solidão e busca pela identidade nacional. 

Em “piseiro dos apaixonados”, parceria encantadora com a cantora Malu, percebemos a competência não só lírica para o que se propõe, mas também a de canalizar os elementos do ritmo que dá nome para a faixa em umas das melodias mais gostosas do disco. Além de boas melodias, também temos boas letras, como no brega-dream-pop “Lindomar”, que cria uma imagem corpórea do mapa do Brasil e fala sobre a sua paixão pela identidade nacional.

“Macho Man” se trata de outro momento interessante e que discute sobre identidade dentro dessa difonia entre o que se ouve e o que se canta. Dialogando os elementos fortes do sertanejo — um movimento cultural-musical que se esforça muito em reforçar papéis de gênero da maneira mais conservadora possível na sociedade brasileira — com a letra que discute sobre os estereótipos de masculinidade, Babalong cria um momento de vulnerabilidade que também funciona como um lindo manifesto.

As três últimas faixas encerram o álbum deixando a tarefa de se despedir dele bastante difícil, começando por “e aí me conta mais” um brega embalado por uma guitarra e os vocais macios do cantor, ao lado de Margaridas, que o acompanha de forma igualmente doce ao cantar os versos muito bonitos da faixa.

Já “me ama na crise”, a faixa mais pop eletrônica do álbum, traz um pouco do que vimos em “Contém1Drama”, mas dessa vez dentro de uma lógica um pouco mais brasileira, com sintetizadores dominantes e uma percussão digna de um bloco de carnaval em Salvador.

Para encerrar, temos “chinesa tropicana” a faixa que remonta toda a identidade artística de Babalong. Nela temos uma melodia caricata, uma letra divertida,  uma produção que mistura elementos folclóricos da China incorporados num sintetizador e vocais de apoio que lembram ritos locais. Ao lado, novamente, o teclado muito bem encaixado entre os acordes de guitarra do brega.

Do início ao fim do álbum a sensação de pertencimento é alcançada, e isso é muito interessante visto a proposta do álbum, pensando no resgate dessa sensação e evocando sentimentos tão bonitos como a nostalgia e a beleza de se deixar amar e até mesmo se enganar. É um album que fala sobre a busca pelo pertencimento, seja no outro, seja numa nação, de forma muito envolvente, como se estivéssemos navegando nesse mar de sentimentos num barco à deriva.

É por isso que, voltando ao início, enxergo em Toto de Babalong uma potência criativa e uma coragem que falta nos artistas do pop nacional em atividade, capaz de unir esses elementos regionais de uma forma mais inédita e (talvez) refinada, não como já vimos com o brilhante Getúlio Abelha ou com os icônicos Luiza e os Alquimistas, mas de uma forma que só quem viveu entre a Bahia e a China poderia fazer. 

– por Lucas Granado. 

 

Selo: Alá Comunicação e Cultura

Formato: LP

Gênero: Brega/ Pop/ MPB/ Neobrega


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