
★★★★☆
Nesses 8 anos que separaram o seu álbum de estréia – Filha de Mil Mulheres – e Mácula, Clau Aniz não se manteve inerte, marcando presença em projetos marcantes da cena independente de Fortaleza, como o Dronedeus, também do selo Mercúrio e o último álbum da banda Máquinas, O Som de Toda Noite. Seu trabalho também pode ser acompanhado nas trilhas sonoras do cinema independente cearense, assim como em projetos com o amparo do Porto Iracema das Artes, que também foi base das primeiras explorações que formaram seu segundo disco. Nesse ambiente pautado por diferentes descobertas sonoras em contextos distintos, o projeto Mácula se formou e tomou incorporações distintas.
Assisti a um show do projeto no Cineteatro São Luiz em 2024 e me impressionei bastante pela versão embrionária dele. Com a tutoria e a participação de Negro Leo, as músicas eram bem mais longas e o improviso bem mais agudo, com uma maior tendência ao electroacústico e ao jazz, o que já representava algo mais radical do que o apresentado no primeiro álbum. Nos shows desse ano, antes do lançamento do álbum, a versão apresentada era mais resumida e mais inclinada a canções convencionais que os shows iniciais, o que não diminuía de forma alguma a natureza experimental e exploratória que sempre caracterizou essas dez canções. Como um exemplo mais palpável dessa distinção, temos a diferença entre as versões de Iua Uru/Uru Iua da versão single de 2019. O single ainda carregava muito da roupagem do primeiro álbum, partindo de um rock mais atmosférico do que a versão que acabou no álbum, que se destitui completamente da instrumentação orgânica para a improvisação electroacústica, e a voz de Clau, colocada em primeiro plano, atinge um tom bem mais fantasmagórico frente ao caos sonoro proporcionado pelo improviso.
Se Filha de Mil Mulheres partia de uma intimidade muito bem sentida, com uma atmosfera soturna e canções mais contidas, o novo álbum já traça um caminho oposto de improvisações e caminhos sinuosos. Como vocalista, Clau projeta a sua voz bem mais pra frente, como uma grande regente dos arranjos e sonoridades surreais que permeiam todo o trabalho. Um fator que me sobressai, que já havia chamado a atenção nos shows ao vivo, é como o novo álbum é fruto de um processo bem mais colaborativo. rubra pedra e cal, colaboração da artista com Zeca Kalu da banda Procurando Kalu – que também está presente no último álbum da banda de Zeca, numa roupagem mais pesada. A versão do disco de Clau é bem mais jazzística, com ênfase forte em sopros e num groove bem tenso, que fica mais intenso conforme Zeca explode em sua declamação, num dos momentos mais marcantes da música brasileira esse ano.
Fico bastante impressionado, enquanto alguém que viu lapsos da lapidação do projeto até a forma final, como o formato resumido dessa exploração ainda é algo bem distinto do cenário da música brasileira hoje. Mesmo nas canções mais diretas, Clau está mais interessada em levar as suas composições para longe do óbvio. O single “e olhar de longe as brasas que dançam na superfície”, estrategicamente posicionada na metade do álbum, é como um olhar para trás ao álbum de 2018, seguindo na cadência atmosférica desse mesmo álbum, mas adaptada ao compasso mais imponente deste trabalho. Onde a primeira metade mais ambientada ao arranjo de sopros é lentamente acompanhada pelo resto da banda, que intensifica a música como forma de acompanhar o sentimentalismo pungente da voz da artista.
A visão musical que Clau nos oferece nos 33 minutos de Mácula é uma paleta sonora expansiva que encontra no ruído e no improviso uma força que acompanha a sua voz num uníssono envolvente. Peças mais instrumentais como a faixa título oferecem um contraste das canções mais convencionais como se representassem um distanciamento desse formato em prol de novas ambientações. Mácula se posiciona como uma das experiências mais energizantes da música independente em 2026 e solidifica Clau Aniz como uma das artistas mais interessantes do nosso país.
Selo: Mercúrio Música
Formato: LP
Gênero: Art rock, experimental, eletrônica


