Crítica | you seem pretty sad for a girl so in love (2026)

Formato: LP

Gênero: Pop / Rock

Gravadora: Geffen

★★★★☆


O coração acelera, os dedos começam a ficar inquietos, a boca não para de querer se conectar ao outro lábio e, a cada dia que passa, você sente que quer ele por perto: isso é o que acontece quando você se apaixona.

Esse sentimento tão intenso é experimentado por Olivia Rodrigo, cantora do jovial GUTS (2022) e do brutal SOUR (2021), diários viscerais de suas frustrações de uma recente pós-adolescência. Para ela, o ato de amar quase sempre foi uma merda (caso me permitam falar palavrões). As traições, as desilusões e outras coisas negativas com “ões” culminaram em canções dolorosas – no bom sentido – carregadas de raiva ou ressentimos.

Para constatarmos esse atestado, não precisamos ir longe, pois basta ouvirmos “Drive License” para entender o que, em you seem pretty sad for girl so in love (2026), Olivia decidiu declarar aos quatro ventos: a idealização irreal de um relacionamento.

“Maybe i too emotional”

O disco, que continua a parceria com o produtor Dan Nigro, não apenas se divide em dois atos (o amor, as suas experimentações e o agridoce da queda), mas escancara a humanidade de alguém tampouco perfeito. Na verdade, como diria Cazuza, ela é um tanto exagerada (“Honeybee”). Isso não é de hoje. Olivia sempre experimentou criar narrativas baseadas nas próprias emoções de uma maneira apocalíptica e sem freios para o que aconteceu em sua história. Porém, no novo disco, a artista respira e senta com a intenção de refletir, mesmo que demore.

Em “Drop Dead”, uma canção pop de abertura do LP, Olivia realmente estava jogada aos pés de Louis Partridge, seu ex-namorado, o qual ela fez uma grande declaração de amor, em que ele é retratado como alguém elevado e celestial. Um anjo do Palácio de Versalhes.

Contudo, a cantora se minimiza na balada catártica de “Stupid Song” e no rock oitentista (altamente The Cure) de “Maggots For Brains”, duvidando da própria capacidade de ser legal ou de ser alguém sem ele (“That’s never been a thing that i do” / “empty, look me”). Esse é um detalhe que passa despercebido, pois, nesta história, o amor, a tristeza e a insegurança andam lado a lado, quase como um só (“My Way”). Para isso, a composição de Olivia teve que passar por transmutações notáveis, resultando em uma característica inédita na sua discografia: o detalhismo.

Em “Purple”, esse novo detalhe é colocado. A canção se preocupa em contar mais e mais minúcias sobre o tempo em que a cantora passou com o ex-namorado, com a família e a sós. É como se tudo fosse feito em uma crônica narrada musicalmente.

A doença incurável do ser humano


Para a tristeza de Olivia, é a partir do segundo ato que esse novo aspecto brilha mais. Aquela persona a qual escondia as suas próprias inseguranças e defeitos vai para os holofotes amarelados da vida.

“The Cure” é a prova de que o amor é uma doença incurável, cheia de cicatrizes e que demoram para ser fechadas parcialmente. Mesmo com um relacionamento mais estável e saudável, ela ainda não se sentia completamente preenchida ou nem sequer estivesse sendo preenchida. A dor atravessa o peito e para nas mãos de Robert Smith, integrante da banda The Cure, em que faz um lindo dueto gótico em “música”, em que mostra o verdadeiro atestado médico de uma Olivia doente: o único diagnóstico possível é o amor.

As duas últimas canções, “Expectations” e “Cigarette Smoke”, são um desenrolar agridoce no final desta história: Rodrigo não fica junto de seu namorado e muito menos consegue solucionar os seus problemas, mas, no fim de tudo, ela está bem.Talvez, essa seja a graça em You Seem Pretty Sad For a Girl So In Love, isto não é mais um conto de fadas, afinal, não estamos falando sobre um bando de adolescentes impulsivos, agora é a vida adulta, com intercorrências crônicas que nem a medicina pode curar.

Para além disso, Olivia Rodrigo deixa um recado bem claro: apesar das emoções, dos erros e dos acertos, ela ainda será humana e, obviamente, continuará a falhar… que bom!


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