Entrevista | DJ Alexia

Depois do lançamento de seu magnus opum, “Apoteótica”, DJ Alexia aposta na nostalgia e na autorreferência pós-irônica de “Genérica”, um álbum que, como ela mesma caracteriza, é feito para cair no gosto do público. Nota-se que, como pano de fundo, o que temos na verdade é um trabalho alicerçado na acidez e na ironia da artista quando reflete questões criativas e sonoras do funk. 

Dentro dessa lógica, o álbum nos entrega acapellas muito características e conhecidas do funk, tanto atuais, quanto mais antigas, feito para conquistar as pistas de forma instantânea, o que seria um caso de criatividade reduzida se não fosse tão bem autoconsciente. Alexia que nos entregar tudo o que entrega na pista: diversão pura. Isso ocorre porquê antes mesmo do seu lançamento, é um álbum que vinha sendo bastante testado nas pistas e nas redes sociais da artista, o que não demorou para inspirar outros DJs a copiarem as mesmas faixas criando uma camada maior de significado relacionando o fenômeno com seu título. 

A verdade é que, ser ‘genérica’ nesse caso torna Alexia uma mente brilhante, muito consciente de seu papel e poder na música e na criação de faixas divertidas e conquistadoras, sem perder seu lado apoteótico, apresentando distorções, ruídos e graves muito bem trabalhados, mas aqui reposicionados de forma até um tanto pós-ironica. 

★★★★☆

 

Para entender mais do processo criativo do álbum e da trajetória da artista, leia abaixo nossa entrevista exclusiva. 

Sua trajetória como artista

Talita Mutti: “Bom, a gente queria entender um pouco, alguns pontos sobre sua carreira, sobre o seu novo álbum, sobre os rolês que você costuma tocar. A gente deu uma pesquisada sobre a sua carreira em si, como é que foi a transição de instrutora de fitness para produtora hoje, como é que funcionou isso?”

DJ Alexia: “Acho que foi muito mais simples do que parece, porque quando entrou a pandemia e eu dava aula de fitness […] como fechou, eu não podia mais ter nenhuma aula coletiva, só que a música sempre teve muito dentro desse processo, das criações das aulas, das criações de playlists para poder estar dando as aulas. […] Caraguá é uma cidade muito pequena, não sou da capital de São Paulo, sou do litoral norte, e aí só tinha praticamente uma balada em Caraguá, e aí o DJ residente acabou virando meu amigo e eu montava as playlists mais ou menos as mesmas que eu dava nas aulas para ele tocar na balada. E aí, sempre que ele tocava as minhas playlists, o dono da balada amava. E aí, todo mundo dançava muito, todo mundo curtia, tanto que até algumas cantoras de sertanejo, de pagode, que trabalhavam nessa balada, que era um bar barra balada, eram minhas alunas. Então, quando eu chegava nesses bares, nessa balada, eu dançava com elas no palco. E aí, meio que a gente pensou, pô, toda vez que eu tô saindo, eu tô subindo no palco, eu preciso de alguma forma também de ganhar dinheiro com isso, né? Toda hora aparecendo lá. E aí, ele tava um pouco cansado de ser DJ, não queria mais, e aí ele falou assim, pô, eu vou te ensinar a tocar pra passar a residência desse bar pra você. E aí ele, na pandemia, colava em casa, com uma breja, […] me ensinava a fazer transição de música tipo techno, house, que é só por contagem, né? Então, eu tinha muita facilidade ali de aprender tempo, por causa da dança […]”

Talita Mutti: “E era um rolê assim, que tocava funk, geralmente? Ou era um rolê mais eletrônico?”

DJ Alexia: “Não era. É tipo assim, gente, cidade interior. É litoral, mas é tipo super interior. Então, começava o quê? Pagode ou sertanejo, terminava com funk, entendeu? Tipo, o típico é a cidade interior, é sempre assim. Pagode, sertanejo, funk no final. E aí, eu fui residente no final do ano, porque aqui a temporada é praia, né? Duas semanas desse lugar. Foi o único lugar que eu fui residente, o resto todos eu já fui atração.”

Lucas Granado: “Legal. E como que foi o seu contato, assim, de passar [pro funk]? Que não era um rolê exatamente muito nichado pro que se faz agora, né?”

DJ Alexia: “Não, nada nichado.”

Talita Mutti: “Como que você entrou no universo do funk mais mandelão?”

DJ Alexia: “[…] Só tinha um cara que produzia um evento que era mais nichado pra funk mandela, que ele trazia paredão de som pra Caraguá. E aí, como eu era mais ou menos uma das únicas DJs da época, ele me contratou pra esse evento. […] Foi quando eu me aprofundei mais em baile de rua, em paredão, em mandelão, o que realmente tocava e fiz um set, tipo assim, no paredão, que eu comecei um set em cima do caveirão, assim. E com fogos e tudo, foi tipo, um bagulho bizarro. E aí, foi quando eu vi que realmente era o que eu amava, o tipo de música que eu falei, caralho, muito foda. E continuei metendo marcha. Mas nessa época, eu ainda não produzia. Então, eu fazia uma curadoria dos mandelas que eu mais gostava e tal. E aí, depois dessa época, eu já tinha mais duas baladas aqui em Caraguá. E essa outra balada, só ia a galera da quebrada mesmo. E depois que eu fiz esse set, eu entrei nessa balada, que se chamava House Beach, na época. E eu fui aplaudida, tipo assim, a balada inteira parou e me aplaudiu. Tipo, acho que ninguém nunca tinha trazido um bagulho tão da hora pra dentro de Caraguatatuba. E eu fiquei em choque, assim. Eu fiquei, tipo, meu Deus, aonde eu me escondo?”

Lucas Granado: “Você iniciou um movimento, né, na cidade, assim.”

DJ Alexia: “Foi. E aí, eu até falo que […] eu sei exatamente o que eu fiz pra ser a DJ Alexia. Porque eu fiz em Caraguá e no litoral. Então, eu já era muito reconhecida aqui. Tipo, eu andava na rua, as pessoas já paravam pra tirar foto. Mas quando eu precisei sair do regional e ir pro estadual ou até mesmo mundial, agora, depois de já ter feito várias turnês. Eu tive que repetir o mesmo processo, pras pessoas me conhecerem. […]”

Vivência feminina no funk

Talita Mutti: “Massa, muito massa. Nossa, muito legal como você pegou esse aprendizado mesmo pra sua carreira em si. E eu queria perguntar, inclusive, né, pegando esse contexto do início da sua carreira até agora, como é que você enxerga a cena do funk pra mulheres DJs, assim? Como é que nos bastidores tem um machismo, uma misoginia meio velada? Você já sofreu algum tipo de preconceito por ser mulher, né?”

DJ Alexia: “É, isso eu acho que sempre tem em todas as profissões. Infelizmente, ser mulher é bem hard, assim, é muito complicado. Tanto que em relação a cachê, é bem mais difícil você subir. Você pode entregar mais número, mais seguidor, mais tudo. Ainda assim, um cara vai conseguir cobrar mais, tipo… Até porque eu até falo isso pra alguns DJs. Tipo assim, se uma música estoura do nada e foi um cara aleatório que produziu, você nunca vai duvidar se foi ele mesmo que produziu. Agora, se for uma mina que lançou uma música e a música estourou, você vai perguntar, tá, mas quem produziu pra ela? Você nunca vai pensar, tipo, caralho, a mina produz bem? Nunca vai ser assim. Então, eu acho que você ser mina nessa cena, primeiro você tem que provar que você sabe fazer o seu trabalho, pra depois você mostrar o quanto você é capaz naquilo que você se propôs a fazer. E eu até falo pras pessoas mais próximas de mim, não adianta ficar com raiva. Você realmente vai ter que fazer esse processo. Só que quanto mais meninas, mais mulheres fazerem esse processo, mais comum vai ficar e mais a cena vai ter espaço pra nós. […] Então, pra mim, eu sempre respondi com trabalho, […] tudo que eu via que eu não gostava ou não tava certo, eu vinha com uma música, eu vinha com um beat diferente. Ah, eu queria tocar pra fora. Eu criei o Apoteótica, juntei vários DJs que todo mundo conhecia e coloquei beats que eu tinha certeza que tocariam na gringa. Então, eu sempre tentei não levar pro lado pessoal, entender que é uma parada sociocultural mesmo do nosso país e fazer com que as pessoas me enxergassem diferente.”

Talita Mutti: “E aí tem essa questão de autoria, né? Tipo, que entra junto com essa coisa da misoginia pra as mulheres que produzem, né? Tipo, é um espaço que as meninas têm que competir mesmo pra estar ali. E acho que pra tocar já é bastante difícil, né? Então, pra produzir é bem complicado, né?”

DJ Alexia: “Eu acho que a competição, não sei se é essa palavra. Porque tem tantas poucas pessoas ainda que fazem que tem espaço. Mas você tem que fazer muito bem aquilo. Porque é mulher, mulher não pode ter espaço pra erro. Entendeu? Infelizmente é isso. E eu falo isso não só como DJ, como qualquer outra profissão ou qualquer outra coisa. Tipo, um homem erra tem sempre um espaço pra resposta e pra poder se redimir. Uma mulher erra já nem tem o espaço pra você mostrar a sua competência. Se você perder esse espaço, você meio que fudeu, tá ligado?”

Talita Mutti: “Tem que provar o dobro, né?”

DJ Alexia: “É, exatamente, exatamente. E é bem cansativo. Você sempre vai ter que fazer duas vezes a mesma coisa. Primeiro você vai mostrar que você sabe fazer pra depois as pessoas acreditarem no seu trabalho.”

Talita Mutti: “E nunca passou pela sua cabeça desistir por conta disso? Ou assim, você só focava no seu trabalho mesmo?”

DJ Alexia: “Total, dá vontade de desistir sempre, gente. Dá uma surtada maluca. Sempre dá vontade, mas eu acho que o propósito a felicidade de quando você tá ali conseguindo levar o seu trampo, o seu trabalho, a sua verdade pras pessoas é muito gratificante. As mensagens que eu recebo, as pessoas falando pô, eu acordo quatro da manhã pra ir trampar e tá só música no fone. E eu falo, mano, de qualquer forma eu tô ajudando a pessoa, sabe? De uma forma óbvia que diferente. Porque pra mim, eu falo até, você é maluco de escutar a minha música quatro da manhã? Mas se eu tô te ajudando, mete marcha, sabe?”

Lucas Granado: “E é interessante isso, porque você tem um estilo de produção pelo menos que a gente consegue reconhecer bastante. Tipo, isso aqui é a identidade da Alexia. E aí eu queria já te perguntar assim em relação à questão de autoria, né? Porque a gente sabe que no funk tem uma discussão de autoria bastante complexa, assim, né? Porque envolve várias coisas de questão estética das bases, e acho que envolve mais a questão do beat, assim. E ainda mais, ocupando esse papel de uma mulher no funk queria saber se já rolou com você coisa de plágio como que foi, como que você lida com isso, assim?”

Questões de autoria no funk

DJ Alexia: “Funk é muito sobre história e cultura. Então, óbvio que vão ter referências de várias pessoas e vários lugares que já existem e tá tudo bem. Já aconteceu a questão de plágio, já aconteceu de usar a minha voz e não acreditar, porque eu também tenho essa parte de cantar. Já aconteceu de pegar projeto que eu iniciei e, tipo assim, se eu comecei o projeto não preciso necessariamente terminar para estar na música. Mas me tiraram do meio do projeto, e o projeto claramente é a minha cara. Tanto que eu descobri assim, as pessoas falaram nossa, você viu essa música que lançou, é a sua cara. Aí eu falei, qual? Falei, gente, mas eu conheço esse projeto, é meu! […] Porque principalmente a galera que é muito nova na cena às vezes acha que por ser funk é uma terra sem lei, não é. Então a gente tem que pensar que tem muito MC fazendo um corre saindo de casa só com o dinheiro da passagem para poder ir para o estúdio gravar, tá ligado? O DJ que tá lá tentando conseguir a melhor voz, a melhor acapella para poder fazer uma música da hora, para tocar no baile ou para realmente ser um hit ali, para você conseguir mudar a tua vida, sabe? Então é muito complicado, mas a gente sempre tenta conversar sempre tenta falar, ô, irmão, não acreditou, ô, meu projeto aí. E aí você tenta ir colocando e se enfiando ali de novo na cena. E até você conseguir mais autoridade também para as pessoas te respeitarem mais, tá ligado?”

Lucas Granado: “Pois é. Enfim, aí tem, depois, né, tem esse rolê das vozes, né? Que você também canta.”

Entrevistador: “Sim. Como que foi para você? Você começou cantando, depois…”

DJ Alexia: “Não, tipo assim, eu comecei produzindo e aí tem um gap muito grande de vozes femininas. São poucas mulheres também que cantam. Da mesma forma que tem poucas DJs, tem poucas mulheres MCs. E aí eu queria vozes femininas nas minhas músicas porque vozes masculinas a gente tem um acesso um pouco mais fácil. […]Então eu falei, bom, vou ter que aprender a cantar. Porque eu quero produzir X e não tem. Eu sempre fui dessas, né? Tipo assim, precisa aprender a dar conta. Eu vou aprender, entendeu? Dá um mês que eu vou dar um jeito. E aí eu comecei a imitar, tipo assim, a voz da Cacau Xuxu a voz da Mari Mai, até eu achar o meu timbre ali dentro de como elas cantam. Porque tem um jeitinho de cantar que eu falo que é a minha voz de piranha safada. […] E aí eu consegui colocar ali dentro das minhas músicas a minha voz. E também foi um jeito de eu conseguir crescer mais rápido. Porque eu sou uma para fazer muita música, às vezes fica difícil. […] Mas foi bem complicado, assim. Porque como você também não tem um nome sendo MC nem um nome sendo DJ, nem todo mundo quer produzir. Então você sempre vai ficar de feat. Você sempre vai ficar para trás. Até você conseguir alguma coisa ou alguém que te dê uma oportunidade. Então se alguém te ajudou, valoriza essa pessoa que te ajudou. Porque é sempre muito difícil.”

Sua história na submundo

Lucas Granado: “Legal. E você sempre teve… Eu considero, pelo menos, que você seja agora uma DJ que produz bastante. E tá sempre lançando várias coisas, né? […] E eu acho que por conta disso também, de ter essa atividade você se tornou a DJ da submundo mais ouvida. A mulher, pelo menos, é a mulher mais ouvida. E é uma conquista muito foda, porque a submundo é muito grande, né? Hoje em dia é um rolê que tem no Brasil todo. E a gente queria saber da importância do Sub pra você de como é lidar também com esses vários tipos de funk, né? Pelo Brasil, assim.”

DJ Alexia: “Eu falo pra galera da Sub que eles mudaram a minha vida. Porque eu ofereci o meu trampo de graça pra várias pessoas e ninguém nunca me dava oportunidade. E aí eu falei pro Tresk, eu falei: Tresk, por favor, me ajuda, me coloca pra eu tocar numa Sub. E aí ele me colocou na de São Paulo. E, incrivelmente, foi no palco principal. Num dos melhores horários. […] E foi ótimo, porque eu tinha um show antes da Sub de São Paulo, em Piracicaba. Aí a gente ficou, dormiu por lá, na casa de uma amiga da Júlia Salvaia, que é uma DJ também. Aí é tudo na base do favor, tá ligado? Porque se não tinha nada, era tudo mato. E aí a gente foi almoçar no shopping. O meu técnico de efeito falou assim Nossa, Alexia, você tem uma loja que é sua cara ali. Aí eu falei, tá, na volta a gente passa. Falei, nem tenho dinheiro direito pra comprar porra nenhuma. Como é que eu vou olhar a loja? Só que eu cheguei na loja, era a coleção nova da Ed Hardy. […] E aí eu expliquei minha história pro cara. O cara me fez um descontão. Levei um kit da Ed Hardy. Então, tipo assim, eu que tava sem roupa legal pra fazer o show fui com o kit mais foda que podia ser. Tipo assim, o caralho, quem que é essa? Aí cheguei lá. Eu tava achando que tava no palco 2 e eu não tinha me ligado na line que eu tava vendo. E aí o Chavoso ligou: Alexia, você tá louca? Você não tá no palco 2? Você tá no palco principal, olha a line”. […] E aí, como tinha que desmontar uma e colocar a outra eu toquei exatos 30 minutos. 30 minutos de set mudaram a minha carreira. 30 minutos fizeram eu vender 30 bailes pro resto do ano. Então, tipo assim… Mas não foi, tipo assim, a Submundo me preparou, eu estava preparada pra Submundo. A Submundo foi a minha vitrine. Então eu já tinha uns 500 mil ouvintes mensais. Já tinha música pra caramba pra galera consumir. No dia que eu toquei na Sub eu lancei um EP que foi o Censurada. […] Então assim, a Submundo é uma grande vitrine. Mas a Sub, assim, mudou minha vida completamente. Eu sou muito grata a todos os moleques de lá.”

Perrengues e sets marcantes

Talita Mutti: “Mano, foda demais. Muito legal. Acho que só pegando um gancho do que você comentou do rolê, de comprar o kit e tudo mais. A gente queria entrar numa pergunta que é qual que foi o maior perrengue de suas viagens, assim pra show, pra rolê? De todos, assim.”

DJ Alexia: “De todos. Inclusive, esse foi até um bom perrengue. Porque, tipo assim, eu comprei mesmo com desconto. Mas acabou com a grana da minha conta. Eu fiquei, tipo assim, com o dinheiro e até a gasolina de volta. E mais um cem conto. Só que chegando lá, não dava pra estacionar dentro do complexo. Eu tinha que estacionar na rua. Então eu paguei mais o cem conto de estacionamento na rua. Então acabou o meu dinheiro, entendeu? Tipo assim, eu só tinha dinheiro pra voltar mesmo. E acabou. […] Mas esse que aconteceu há um tempo atrás. O contratante falou assim, não, vai ter van pra vocês do aeroporto. Aí chegamos, não tinha van. Era um carro rebaixado. Acho que era, sei lá, um Fiesta Sedan rebaixadão. Todo batido. […] Não tinha ar-condicionado. Não abria por fora. Não abria por dentro. A gente teve que ir na BR lá da puta que pariu de uma cidade de super interior. Que era, tipo, uma pista de ida e uma de volta. Vários caminhões. Toda vez que um caminhão passava, o carro chacoalhava. E aí, a gente foi numa viagem de mais de três horas. Com o carro lotado. Porque o contratante colocou uma outra moça que era do evento. Que a gente nem conhecia. A moça ficava pedindo pra acelerar. E aí, a gente foi com um ventão na cara. E não dava pra dormir, não dava pra descansar. Tipo, a gente quase morreu, assim, umas nove vezes. E a gente teve que ir e voltar com o mesmo cara. Porque se pedisse pra melhorar, vai que estragasse. Pelo menos o cara era um motorista gente boa. Completamente louco da cabeça. Mas era gente boa. Ele ainda ficou na festa. Assistiu o meu set. Levou a galera da festa embora. Bebeu. Então, ele voltou com sono, gente. O sonho foi triste.”

Lucas Granado: “Meu Deus!!! Bebeu…”

DJ Alexia: “Foi a treva. Foi. Foi por Deus. Deus estava muito comigo nesse dia.”

Lucas Granado: “Não, era pra você voltar viva. Era pra você voltar.”

DJ Alexia: “Era pra eu voltar. Não, eu tinha que lançar mais música. Porque ele falou, não, filha. Vai lançar seu álbum. Pelo menos.”

Talita Mutti: “E acho que nessa linha também, qual foi o set mais marcante pra você? Porque você já falou bastante da Submundo. Mas não sei se tem um outro.”

DJ Alexia: “Tem um set muito marcante que eu fiz. Que eu abri o show do Pedro Sampaio aqui na minha cidade. Que foi pra umas 30 mil pessoas. E eu tive um balé de oito dançarinas que a gente ensaiou. Tudo bonitinho. Tem uma única loja de efeitos daqui da minha cidade. Que é o Marquinhos Efeitos. E ele me deu de presente, tipo assim, um botijão de CO. Tipo assim, um botijão de nitrogênio amarelo. Gente, é muito caro. Tipo, cada apertada daquela vai uns mil reais fácil. […] Então eu ganhei de efeito, assim, uns quatro mil reais. Além do que eu já tinha comprado. Tanto que o produtor do Pedro Sampaio veio falar com o meu produtor. Falou assim, você tá usando os efeitos do meu artista? Aí ele olhou e falou assim, não, esse aqui é só da minha artista. Então assim, foi lindo, foi lindo. Tipo, era minha mãe e meu pai, assim, na minha frente. Toda a galera que eu conhecia, assim. Tipo, eu já fiz podcast até em escola aqui em Caraguá. Então eu tinha uma criançada, assim. Fiz um show todo light. Já toquei muito na prefeitura. Então tipo assim, como eu já tava produzindo minimamente bem ali. Eu já mudei todo show, fiz um show todo lightzão. Então acho que shows em Caraguá pra prefeitura, que é sempre aberto pra galera que não pode pagar, ou não pode ir no show, mano, pra mim, tem muito meu coração. E eu já fiz muito trio elétrico aqui em Caraguá. É muito gostoso. Eu toquei na primeira parada LGBT daqui da minha cidade. Então foi tipo assim, todos os eventos que são em Caraguá. Como são muito pracinhas, de forma que, assim. Sabe o que tem, que dá pra colocar funk. É muito especial. Tanto que nessa parada LGBT desse ano, que vai ser a terceira eu vou tentar levar a Ari Falcão, que eu sei que é tipo um ícone pra todo mundo. Então a parada LGBT vai ser, assim, gigantesca. Vai ser muito legal. Vai ser O rolê. Eu acho que vai ser na maior praça que tem aqui. Então tô hiper animada, assim. E é uma delícia tocar pra galera daqui. Até porque a galera pergunta. Ah, mas você não vai mudar pra São Paulo? Eu falo. Não, gente. Minha família tá aqui. Tá todo mundo aqui. Tipo, eu não consigo. Eu prefiro pagar mais do meu bolso. Prefiro ter mais duas horas e meia aí de logística sempre. Quando eu vou pegar um voo ou quando eu vou pra outro lugar. Mas eu gosto da minha cidade, assim. Eu amo isso aqui. Eu acho que o que eu puder fazer pra melhorar. Eu vou fazer. Se Deus quiser, eu vou conseguir ter bastante dinheiro. Abrir um estúdio de música. Ajudar a galera. Ou até mesmo pegar uma balada. Alguma coisa pra tocar, assim. Fazer um funk virar de verdade aqui. Mas preciso crescer um pouquinho mais no trabalho. Pra isso dar certo.”

Sobre o álbum novo, “Genérica”

Lucas Granado: “Agora, partindo já pro que a gente… A que viemos, né? Pra gente falar sobre o álbum. Eu vou falar pra quem estiver ouvindo ou lendo: a gente já ouviu o álbum. A Alexia nos enviou já faz um tempinho. E assim, tá insano. Eu achei muito diferente do primeiro. Do primeiro não, do Apoteótica, né? Que a gente já ouviu também. Eu queria saber como que você pensou, assim, né? Inclusive, acho que a Alexia é uma das DJs que pensa muito sobre seus álbuns, assim. Como eras e como estética também. Como conceito. Então eu queria saber como você pensou sobre esse.”

DJ Alexia: “São músicas que, até de primeiro momento, elas não eram pra ser um álbum. Eram músicas que seriam únicas, exclusivas de show. Porque pra um DJ, quando você vai dividir line com diversos nomes gigantescos, a sua música é a sua melhor arma ali durante o set. Porque é o que te diferencia. É o que faz a galera se identificar com você. Porque é o seu beat. É o seu beat, a sua cara, a sua identidade. Só que eu comecei a ver que as pessoas começaram a me tirar bastante como referência. Pra fazer os mesmos beats. Pra fazer as mesmas escolhas de acapella. Pra, de certa forma, até me homenagear. E geralmente eles falam isso pra mim. Tipo, pô, olha essa música que eu fiz pensando em você. […] Então, eu vi que eram músicas que eram muito tristes de ficarem guardadas só no meu pendrive. Porque a galera realmente gosta. Realmente usa como referência. Só que daí também, de certa forma, eu quis fazer uma crítica. Porque se todo mundo tem as mesmas referências, as mesmas… Como se diz? Conseguem os mesmos lugares, nas mesmas acapelas, os mesmos samples, conseguem ter as mesmas bases de dados ali. Não sei se eu posso dizer dessa forma. O que faz aquilo ali ser único pra você? O que faz a galera escutar e sentir que, pô, isso aqui é da DJ Alexia?. E aí, por isso, a brincadeira e o trocadilho com nome ‘genérica’. Porque se eu tô lançando depois de todo mundo que já me usou como referência, que já copiou alguma sequência de acapela, algum beat, alguma coisa, eu sou a genérica? Eu que tô copiando alguma coisa? E a nossa cena, por todo mundo usar as mesmas, entre aspas, bases de dados, fica saturada. Então, você vai numa festa e parece que você tá ouvindo a mesma música de novo, de novo, de novo, de novo. E aí, foi meio que uma cutucada pra mim e pra minha própria cena de o que vocês estão fazendo pra que seja o seu diferencial. Não tem problema copiar, mas até onde você tá copiando sem procurar a sua identidade, sem mostrar pras pessoas quem é você, qual é o seu diferencial, o que você veio aqui fazer que vai não mudar o mundo, mas mudar o seu mundo ou as pessoas que estão ali dentro do seu mundo.

Lucas Granado: “Eu acho que a sensação, quando a gente escuta o álbum, é de que a gente percebe essa essa ironia que você traz como crítica. E aí, eu não sei, acho que todo mundo aqui já deve ter ouvido de algum amigo, tipo “ah, eu não curto rolê de funk, que é sempre a mesma música, sempre o mesmo beat”, e eu acho que você acaba até brincando com isso, assim, no álbum. Muito mais pelas acapellas, que são bastante conhecidas, assim, né. Mas no finalzinho tem sempre um toque seu, assim, tem sempre ali tem bastante distorção, então a gente consegue perceber aquela coisa ruidosa do ‘Apoteótica’, eu acho que ela ainda está ali um pouquinho no fundo.”

DJ Alexia: “Tá, com certeza.”

Lucas Granado: “E aí eu queria que você traçasse esse paralelo, assim, de… Não sei se você pensou em fugir e ir contra o ‘Apoteótica’, assim, totalmente, pra você se descaracterizar dele, ou o que você acha que você acabou pegando dele e incorporando?”

DJ Alexia: “Eu acho que o Apoteótica era todo o meu diferencial, eu depositei ali, em conjunto com outras pessoas. E aí como o Genérica não era pra ser necessariamente um álbum, mas eu encontrei um belo motivo pra se tornar um álbum, ainda tem coisas que são minhas, mas beiram o ‘Genérica’, tanto por conta das acapellas, tanto por conta dos samples usadas, dos beats, mas sempre vai ter alguma coisinha ali que vai lembrar de mim. […] Mas eu não penso em exatamente continuações ou descontinuações, mas cada coisa que eu lanço fala um pouco da época que eu estou passando ou sentindo. Então eu tive o ‘Censurada’, eu tive o ‘Subversiva’, eu tive o ‘Apoteótica’, e eu tô me sentindo ‘Genérica’, porque eu ainda não encontrei nada de novo que diferencie tanto assim de ‘Apoteótica’. Então faz parte também, eu acho, que você ser um pouco do mesmo até você encontrar algo novo.”

Lucas Granado: “Então, e isso é bem interessante, porque agora, linkando com o que a gente falou agora, assim, o Genérica, ele talvez não demonstre só o que você tem sentido em relação às festas, mas, assim, vem muito daquela Aleixa que tocava lá na balada dessa cidade, que, tipo, sabia o que o pessoal queria ouvir. E quando a gente vê um set seu, eu já vi dois sets seus ao vivo, a gente sabe que você lê muito bem a pista. E tem ali momentos que são muito característicos seus, que a gente reconhece muito fácil no ‘Genérica’. Tanto pra parte mais genérica, né, da festa e de estar ali brincando, quanto pro lado, não diria que é mais artístico, porque não é menos artístico, né, a parte genérica, mas talvez um pouco mais aprofundado ali nas outras bases do mandelão, enfim, do que é mais experimental. Então acho que é um álbum que acaba amarrando bem essa [persona], até mesmo, sua trajetória até aqui, assim, eu achei ele brilhante nesse sentido.”

DJ Alexia: “Obrigada! Talvez é bem isso mesmo, acho que foi um álbum que é pra agradar, sabe? Tipo assim, o ‘Apoteótica’, ele não tinha essa intenção, não tinha a intenção de alguém gostar, tinha a intenção de mostrar quem eram as pessoas que estavam ali produzindo o beat. O ‘Genérica’, ele tem um que é de… Pô, eu quero agradar você, eu sei que com essa música… Não tem como você falar que você não gosta, porque você conhece, vai cantar a acapella, entendeu? Você vai, você vai. […]”

Lucas Granado: “Eu ia te perguntar sobre a recepção, o que você espera do público e tal, mas acho que você meio que antecipou a sua resposta, assim, se você quiser complementar.”

DJ Alexia: “Cara, eu acho que é isso, assim, é um álbum que todo mundo praticamente já ouviu todas as faixas, porque quem pelo menos foi no meu set com certeza já ouviu, não sei se vai lembrar, né, dependendo do quão louco estava, mas com certeza são músicas que vocês já ouviram nos bailes, assim, que vocês já cantaram, já curtiram, já pediram de novo. São músicas que eu posto no TikTok e geralmente sempre viralizam os vídeos com essas músicas, porque são músicas muito batidas, mas com um jeito bem diferente ali de beat. Então, eu acredito que vai ser bem abraçado esse álbum, assim. É um álbum que eu acredito muito que tenha um hit de bastante milhões ali dentro, que as pessoas vão escutar bastante.”

Bate-bola

Talita Mutti: “Alexia, agora a gente queria fazer um tipo um bate-bola aqui com você, umas perguntas mais rápidas sobre coisas meio diferentes, assim, mas ainda falando um pouco sobre o seu trabalho, sua carreira. Eu queria começar perguntando qual o seu gênero favorito de música sem ser funk?”

DJ Alexia: “Pode ser, tipo, uma banda? Porque eu tenho hiperfoco, assim, na banda.”

Talita Mutto: “Pode, pode.”

DJ Alexia: “Paramore. Ah, nossa! E eu escuto, tipo assim, as mesmas músicas sempre, sabe? Tipo, apesar da banda ter acabado, eu escuto as mesmas músicas sempre. E me arrependo horrores de não ter ido num show quando ainda tava ali.”

Talita Mutti: “Mas é uma paixão, assim, da banda desde mais nova?”

DJ Alexia: “Desde adolescente. Tipo, sabe quando você começa a dirigir? Tipo assim, tirei a carteira de motorista, o som que você põe no carro era esse. E cantando horrores, assim.”

Lucas Granado: “Eu acho que dá pra gente conhecer um pouquinho disso em “Rock Agressivo”. Não sei, é um palpite.”

DJ Alexia: “Tanto que os beats de rock, tipo assim, óbvio que eles já existiam. Mas eu sinto que eu puxei muito essa vertente de um jeito, pelo menos uma estética de estrutura musical quando coloca o rock ali, que várias pessoas também usaram. Então, tipo assim, eu sinto que eu consegui escolher bem o jeito de colocar o rock ali dentro do funk. E eu sou apaixonada, nossa, em  “Rock do Submundo”, “Rock Agressivo”, agora em “Faço Funk, Faço Rock” também [que] é um pouquinho mais leve, mas também é muito gostosa. Eu amo, assim. Até a galera falando, tipo, você gosta de Paramore? Por que você não faz, tipo, um remix, alguma coisa? Eu falei, porque eu tenho medo de mexer no que eu gosto. Quer dizer, eu gosto muito pra tentar estragar.”

Lucas Granado: “E de gênero eletrônico, assim, o que você curte?”

DJ Alexia: “Gênero eletrônico? Eu acho que eu gosto muito de Psytrance. E um hard, tipo assim, eu acho que eu não aguentaria uma festa inteira de hard. Mas eu gosto do hard.”

Lucas Granado: “Legal, legal. E a gente, acompanhando você, enfim, pelo Instagram e pelas redes sociais, percebeu que você, às vezes, traz ali uma influência de jogo, comenta de alguma coisa de game, assim. Não sei se você chega a se considerar uma gamer, mas se você…”

DJ Alexia: “Com certeza!”

Lucas Granado: “Eu vi que você gosta bastante de Valorant.”

DJ Alexia: “Amo! É que, gente, eu tenho as minhas horas divergentes. Então, eu tenho muita hiperfoco. Ai, nem é meme, tá? Nem é meme. Só estou estudando mais sobre. Qualquer coisa eu leio pra um papo pra uma outra entrevista. Mas, é… Eu gosto de fazer… Eu comer, geralmente, as mesmas coisas. De fazer os mesmos beats. De jogar o mesmo jogo, de escutar a mesma música. É… Por isso que, talvez, seja um pouco difícil, agora, eu sair do que eu criei no ‘Apoteótica’ para um próximo. Mas, eu já tenho aqui na minha mente, assim, combinando coisinhas. Mas, quase todos os meus trabalhos que são assim, eles geralmente vêm com alguma… Ai, como que eu posso dizer? Por exemplo, ‘Bad Bolhas’. Eu vi o auge que o Bad Bunny tava e falei, aqui é o Brasil! Então, tipo assim, eu sempre venho com uma criticazinha, sabe? É sem querer, sabe? Então, sempre esperem alguma criticazinha. Nunca vai ser só uma música por música. Principalmente em álbum.”

Lucas Granado: “Legal. E aí, a pergunta seria, se você fosse fazer um beat inspirado em algum jogo, qual jogo seria?”

DJ Alexia: “Ah, Valorant, eu, inclusive, tenho. É porque, tipo assim, eu tenho álbuns antes da galera me conhecer. E aí, quando aquele negócio tava entre funk e funk, eu criei o Funkverso. E aí, uma das músicas tem a voz da Reyna, que é uma agente do Valorant. E ela fala uma frase lá.”

Talita Murri: “ E agora, também, falando um pouco sobre moda. Porque a gente viu que você vai super estilosa nos sets, assim, muito estilosa mesmo. Qual item ou acessório que é indispensável pra você se apresentar nos sets?”

DJ Alexia: “Cara, eu adoro calça larga. Eu amo as calças largas. Amo. Tanto que dificilmente vocês vão me ver de shorts, de saia, de qualquer outra coisa. Amo calça larga. Mas eu acho que é indispensável. Mas por de um acessório, eu adoro boné. Eu adoro touca. Mas geralmente, sempre vou estar de calça.”

Talita Mutti: “Achei que você falaria do óculos, porque eu achei seus óculos tão bonitos.”

DJ Alexia: “Mas é que, tipo assim, o óculos é como se fosse eu já, sabe? Tipo assim, não tem como a Alexia viver sem o óculos. Talvez eu nem considere um acessório, eu considere, tipo assim, uma parte de mim. Eu troquei, eu coloquei lente de grau no óculos da Meta. Então, eu sempre converso com o óculos lá. Pergunto as notícias do dia, temperatura. Ou gravo alguma parte do show e posto com o Pov. Tipo assim, se você fosse DJ, como você estaria vendo a festa agora? Eu sempre gosto de postar assim.”

Talita Mutti: “Legal. E não sei, você falou que você gostava do Paramore, né? E de rock. Mas você já teve alguma diva pop favorita, assim, durante sua adolescência ou até hoje?”

DJ Alexia: “Não, eu sempre fui meio rebelde. Eu já tive a minha fase, era mais fácil de perguntar.”

Talita Mutti: “Já teve sua fase emo, já?”

DJ Alexia: “Não, já. É porque, tipo assim, as minhas amigas que tinham divas pops, elas tinham TV a cabo em casa. Então tinha muito Disney, Channel, essas coisas assim. Então, um pouco que eu pegava, eu tinha um grupinho de três amigas. Que são, tipo assim, pra sempre. E elas, uma era muito fã de coisas pop e era Demi Lovato. […] Eu não tinha isso em casa, né, gente? Então, eu assistia Globo, sabe? Demorei pra me ter uma cultura ali diferente do que meus pais. Que não tiveram oportunidade de ter um ensino nem fundamental, completo. Então, demorou um pouco pra mim pesquisar outras coisas, pesquisar novas coisas. Eu sempre tive uma infância mais pobrezinha, assim. […] Mas a minha irmã foi a primeira a ser formada da família. A minha mãe foi a primeira mulher a tirar carteira de motorista da família. Então, tipo assim, sempre foi uns perrenguinhos, assim. De toda a maioria dos brasileiros, né?”

Lucas Granado: “Ah, sim. Sim, com certeza.”

DJ Alexia: “Mas é que eu sinto que hoje as pessoas olham pra mim e elas sentem que eu sou, tipo assim… Muito rica, que eu sempre fui muito rica. Mas eu acho que eu só tento passar uma versão leve das coisas, sabe? Eu acho que apesar de todos os traumas, de todas as coisas que a gente já passou na nossa vida. Eu, como artista, eu preciso levar entretenimento e felicidade. Eu não me sinto no direito de ficar falando coisas da minha vida, assim. Tanto que pouca gente sabe de coisas da minha vida. Eu tento separar bastante, assim. Mas quando alguém pergunta, eu não tenho problema nenhum em dizer.”

Lucas Granado: “E é muito bonito isso, de você compartilhar a sua história. Porque a gente tava falando de coisas que você atingiu, feitos que você teve, né? E aí a gente vê um exemplo, assim, de uma pessoa que tava lá.  Acho que isso pode inspirar bastante gente, assim, várias mulheres, queremos mais mulheres produzindo também!”

DJ Alexia: “Nossa, por favor. Mas é na cara e na coragem, assim. Muita pergunta pra quem você acha que vai te dar uma mínima atenção ali. Porque é bem complicado achar. E lembrar sempre que até a pessoa que mais vai te jogar pra baixo, pode ser que algum dia te ajude. […] Então, todas as críticas, boas ou ruins, eu sempre escutei. Porque se tem alguém falando, tem alguma coisa que tá com a ponta solta. Tem alguma coisa que eu posso fazer pra ser melhor, pra mudar, pra fazer diferente disso aqui. Então, esse cara que falou isso, que me humilhou na frente de um monte de gente me deu o microfone pra eu poder estourar minha primeira música. Então, tipo, às vezes a pessoa não tá pensando em quanto ela vai te ajudar ou te afundar, tá ligado? Então, de certa forma, ele me ajudou duas vezes.”

Lucas Granado: “Você soube remanejar nessa energia ruim, de certa forma.”

DJ Alexia: “Eu acho que a gente sempre tem que saber. Porque no mercado musical é mais fácil você encontrar pessoas que vão te dar motivos pra desistir do que motivos pra continuar. Então, se você não conseguir ressignificar todos esses motivos de forma com que isso vire gás pra você se manter constante, competente na caminhada você vai desistir. Porque é muito duro, tipo, é… Sempre gente contratando, falando pô, você não serve pra tocar pro meu público. Meu público é X, você é Y, tá ligado? Porque eu não sou padrãozinha, não mostro meu corpo. Eu tento usar as roupas mais largas possíveis. Eu quero que as pessoas escutem primeiro a minha música e depois me achem bonita, feia ou caralho, tá ligado? Porque geralmente mulher é muito disso, né? Tipo, pô, ela tá lá porque ela é bonita o suficiente. Eu não quero que seja isso. Eu quero pô, ela tá lá porque ela é boa o suficiente. A música dela é foda. Ela tem vários hits, entendeu? Então, assim, eu sempre tentei pegar aquilo que de certa forma ia ser meu ponto fraco e trazer como meu ponto forte.”

Lucas Granado: “E transformar isso em arte, né?”

DJ Alexia: “É, total, total. Mas tudo isso sempre tá nas minhas músicas. Quem consegue ter essa… Quer […] me entender, eu acho que consegue enxergar tudo isso.”

Lucas Granado: “Legal. E aí, não sei se isso já te ocorreu. Mas de você ouvir alguma música, assim, principalmente funk agora, pensando no que você faz. De você ter ouvido alguma música que você ficou com, tipo assim, gostou tanto que ficou com raiva de não ter sido você que fez aquela música. Queria saber se existe e qual é.”

DJ Alexia: “Pior que não. Eu acho que eu sou tão estranha, porque geralmente os beats que estão mais… que a galera tá mais fazendo, tá mais gostando, eu não quero [fazer]. Eu não quero fazer aquilo. Eu quero fazer outra coisa, tipo. E eu acho que essa é a maluquice da minha cabeça, tipo assim. Pô, tá todo mundo fazendo bolha. Eu não quero fazer bolha. Meus beats de bolha foram completamente obrigados. Inclusive, ‘Bad Bolhas’ é literalmente Bad Bolhas.”

Lucas Granado: “E a dissolução da bolha ter hitado deve ter te dado um pesadelo.”

DJ Alexia: “É, porque a dissolução da bolha, ela precisava ser bolha. Porque eu chamei o Petrus, eu chamei cada pessoa, tipo assim, pra poder fazer de acordo com aquilo que realmente fosse a verdade dele. Então quando eu chamei o Petrus, eu sabia que ia ser bolha. E eu amei ser bolha, eu amo bolha, de verdade. Mas é que, o que eu sinto dos DJs? Quando eles não têm o que colocar, eles não vão pensar no que colocar. Eles vão só jogar uma bolha aleatória. Me tira do sério, gente. Juro. E eu já xinguei vários produtores que são meus parceiros. Falei, mano, você não sabe o que pôr aqui, né? Você só põe uma bolha e a pessoa…”

Lucas Granado: “E confirmou sua tese.”

DJ Alexia: “Tipo assim, são coisas que é entre a gente. É assim que a gente sempre conversa, a gente sempre comenta. Não tem esse tempo ruim. Porque já teve músicas também que eu falei, puta, vou pôr uma bolha porque eu não tenho o que fazer. Isso aqui vai ficar muito rico. Tanto que os meus próximos dois projetos é ‘Type Bolha e Type Berimbau’.”

Lucas Granado: “Olha, estamos ansiosos.”

DJ Alexia: “Para continuarem o ‘Genérica’, né? Que são beats que geralmente a galera já gosta, já curte. E que são mais comuns para a galera. E que geralmente todo mundo gosta de escutar. Então vão ser dois EPs. O ‘Type Bolha’, só beats bolhas e o ‘Type Berimbau’, só beats de berimbau.”

Lucas Granado: “Berimbau eu acho que está menos em alta assim do que a Bolha. Eu acho que vai ser legal você retomar isso.”

DJ Alexia: “É que o Berimbau ele toca muito no sul. Então talvez em São Paulo realmente não esteja tão em alta. Mas eu geralmente não sou uma pessoa que pensa só em São Paulo.”

Talita Mutti: “Sim, isso é muito importante.”

O funk como movimento artístico-cultural

DJ Alexia: E mudou muito a minha cabeça ter viajado para fora do país. Porque eu consegui ver que o Brasil já está lá. O Brasil ele nem sabe o quanto o funk está lá. Tipo assim, parece que aqui a gente está numa briga de mostrar o quanto o funk é importante. E as pessoas já sabem que o funk é importante. Tipo assim, óbvio que a gente tem que continuar mostrando a importância do funk. Longe de mim, que era outra coisa. A gente precisa. Mas lá, o funk é tão, tão, tão, tão forte. E tão sem preconceitos. Pelo menos nos lugares que eu fui. Estou falando isso na minha experiência. Que tipo assim, tudo lá é funk. Até um sertanejo é funk. Dependendo de qual sertanejo for, as pessoas entendem como funk. Porque veio do Brasil.”

Talita Mutti: “É brasileiro.”

DJ Alexia: “Exatamente. Afrobeat, dancehall. Tipo assim, todos eles são hiperfunks pra eles. É tudo muito próximo do funk.”

Lucas Granado: “Isso é muito interessante você falar isso. Porque acho que, no fim das contas, o que a gente faz também como portal, assim, pelo menos o que me motiva bastante a escrever e a gente trazer sempre DJs, artistas que trabalham com funk. Nossa curadoria é bastante voltada pra isso. É porque a gente geralmente vê que as pessoas, além de não entender o funk como um movimento, né, desmerecem muito, às vezes, pensando na lógica da letra. Tipo: “ah, funk é só putaria, só fala qualquer coisa”. Mas acho que o mais legal da gente parar pra ouvir e prestar atenção é que tem realmente um cuidado estético. Tem um cuidado ali na produção. Tem uma complexidade ali de elementos e que é muito artístico.”

DJ Alexia: “Totalmente. É muito difícil de fazer.”

Lucas Granado: “E as pessoas fazem no celular, assim, né. Tem DJs que fazem no celular. Tem DJs que fazem no notebook velho, assim.”

DJ Alexia: “Sim, sim. E lá fora, eles reconhecem, sim. Enquanto a gente consegue experimentar.”

Lucas Granado: “E é muito nosso, né.”

DJ Alexia: “Muito, muito nosso, muito nosso. No Japão também, quando eu fui. Tipo assim, é bizarra a quantidade de brasileiros que levam as coisas que a gente tem pra lá. Que conseguem levar a nossa cultura pra lá, as festas. Meu, bizarramente foda, assim. O nosso funk é gigantesco. E eu acho que a gente não tem nem noção do quanto ele é grande. Eu acho que nem dá pra quantificar isso, assim. Do quanto as pessoas abraçaram o funk lá fora. Então eu sempre, quando eu faço música, quando eu faço coisas eu nunca consigo pensar só em funk como funk paulista. Eu penso em funk como um todo. Que pode gerar pra tudo, assim, sabe.”

Talita Mutti: “E eu acho que é melhor pra mais pessoas se identificarem, né. Se você tá pesquisando funk, tipo de funk de outra região. Então, sei lá, de Minas, que é diferente. No Rio de Janeiro, enfim, de outros estados. Pô, você vai conversar com muito mais pessoas, né.”

DJ Alexia: “Eu acho que isso é super legal. Tanto que a minha ideia de fazer o álbum ‘Apoteótica’ com vários DJs diferentes era literalmente pegar um pouquinho de cada lugar. Porque eu sinto que eu não posso me apropriar daquilo que não é meu. Por exemplo, eu não vou fazer um capixaba, tá ligado. Tipo, não sei. Não sei como rolar. Mas se eu chamar um DJ pra um feat, eu vou aprender alguma coisa com ele que eu posso trazer pra dentro da minha música. Então eu sempre tento perguntar, consultar. Agora eu tô muito numa vibe do Boom Bap. Até porque foi uma das músicas que mais andaram dentro do álbum Fodas. E aí eu tenho meu primo, o Lucas Bin, que é de Curitiba, inclusive. E aí eu mando vários projetos de funk para ele. E a gente tá transformando esses funks em Boom Bap. Então já tem um pronto pra sair. Eu tô puxando um outro pra talvez entrar no Type Berimbau. Então vai ser uma coisa bem legal, assim, de ver e de fazer. Funk com Boom Bap.”

Talita Mutti: “Legal. Você tinha comentado também de como vai a recepção do próximo turnê pra fora. Você falou do Japão. Tem algum país que você gostaria de voltar, assim, muito?”

DJ Alexia: “Japão, Japão. Gente, Japão é tipo assim… Nossa, tipo, meu Deus! De estrutura de evento, não é os melhores. Mas eles estão melhorando. […] Por exemplo, eu chegava no Japão e eles gostam muito das minhas músicas. Então quando eu ia tocar, eles já tocavam na hora que eu chegava. Todas as minhas sequências de hits. Porque era em homenagem a mim. E eles não tem problema em repetir a mesma música cinco vezes. Tipo, pra eles, no set tá tudo bem. O público não liga. E aí a gente falou, pô, lá é assim, assim, assim. Geralmente não repete e tal, não sei o quê. Talvez algum outro artista que chegue aqui do Brasil não entenda. […]”

Talita Mutti: “Eu acho que é bem diferente, assim, do que a gente imagina, né? Porque a gente tem uma visão, assim, do Japão. Onde você tem uma cultura muito mais reclusa, né? Muito mais…a gente sente que o brasileiro é muito mais animado em tudo, né? E aí você falando isso.”

DJ Alexia: “É porque lá é extremamente populoso. Então a cidade que mais tem brasileiro… Por exemplo, a minha cidade, Caraguatatuba, tem uns… Não chega a 200 mil habitantes. Lá, em uma cidade… Uma cidade de Japão que mais tem brasileiro tem, tipo, uns 300 mil brasileiros. Só brasileiros, não tô falando do resto. Tipo assim, tem 4 milhões de habitantes. Só de brasileiro tem 300 mil. Então é muito brasileiro. Lá é mais fácil você encontrar gente falando português do que inglês. Andando na rua, assim, sabe? Então, tipo assim… Não perde tanto essa cultura brasileira. De festa, de calor, de… E lá tem muito peruano, filipino. E eles são muito dessa mesma vibe do Brasil. Então eles gostam muito. […]”

Lucas Granado: “E acho que agora, pra gente finalizar… Queria saber se você tem… Você vai tocar agora com o GP da ZL, que a gente sabe que é um grande parceiro seu, se você tem algum outro B2B dos sonhos, assim, que você queira fazer, assim. Pode ser um DJ gringo, sei lá, qualquer pessoa.”

DJ Alexia: “Outro B2B dos sonhos? Cara, eu acho que uma das minhas grandes inspirações é o GBR. Então, talvez um B2B com ele seria incrível, assim. Até porque ele foi o primeiro cara que deu um suporte numa música minha. Então, eu sou eternamente grata a ele. […]”.

Lucas Granado: “Legal. Foi muito, muito bom conversar com você. Queria agradecer de novo. Queria desejar sucesso pro ‘Genérica’”.

 


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